sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

Rorty: a dignidade em forma de vida

Richard Rorty
Transcrevo abaixo um belo texto de Jurandir Freire Costa escrito por ocasião do falecimento do filósofo Richard Rorty, ocorrido em 08/Junho/2007.

Por: Jurandir Freire Costa

Fonte:Portal Brasileiro da Filosofia (http://www.filosofia.pro.br/)


Jurandir Freire Costa


(Jurandir Freire Costa é Psicanalista. Coordena o Grupo PEPAS, na UERJ.)

Há 20 anos, exatamente, deparei-me, por acaso, com A filosofia e o espelho da natureza de Richard Rorty. O choque da leitura foi fulminante. Fiquei boquiaberto. Poucas vezes um livro me causou tamanha curiosidade, admiração e inquietação. Obviamente, não ignoro que espanto deveu-se, em grande parte, a ignorância. Por ser psiquiatra e psicanalista de formação, jamais tive muita familiaridade com a literatura filosófica.
Mas o fascínio se explicava por algo além do embasbacamento do neófito. Dois outros ingredientes favoreceram o encantamento de que fui tomado ao ler Rorty. Primeiro seu talento magistral para verter em termos claros e simples os mais complexos problemas e conceitos herdados da filosofia analítica de língua inglesa; segundo, o recado cristalino que fluía de sua escrita. Como Michel Foucault ou Hannah Arendt, Rorty não escreveu apenas para filósofos ou especialistas em filosofia. Escreveu para quem quisesse ouvir o que ele tinha de fundamental a dizer, e que poderia resumir-se em duas grandes injunções:

1) “a dor física e a humilhação é o que de pior podemos fazer a nosso próximo”;

2) “estender tanto quanto possível a referência do pronome nós” é o que de melhor podemos fazer uns aos outros.

Hoje, tendo tido conhecimento de sua morte, é difícil dizer o que é mais doloroso perder, se o filósofo Rorty ou a pessoa humana Rorty. De um lado, queria testemunhar que suas elegantes e originais teses sobre o pragmatismo lingüístico, epistemológico, e, principalmente, ético sobre a “verdade”, o “conhecimento” e o “sujeito” me marcaram de forma indelével. Não poderia resumir, em duas páginas, o enorme impacto que elas tiveram na minha compreensão da prática e da teoria psicanalíticas. Do mesmo modo, tudo que pude aprender com ele sobre o respeito à pluralidade de idéias, o culto ao debate democrático e a abertura intelectual para a diferença de opiniões não se mede em palavras.
De outro lado, entretanto, algo em Rorty me impressionou de modo especial. Tive, com ele, apenas três encontros: dois no Rio e um em Belo Horizonte. Em todos, a mesma surpresa e a mesma emoção. Enfim, tinha conhecido alguém que agia como pensava; alguém que procurava, honesta e generosamente, aproximar-se dos ideais de vida nos quais acreditava. Rorty foi um dos pensadores que mais me fez acreditar que pensar não é uma tarefa inútil, ociosa, feita para adornar a fútil vaidade dos “sábios” ou a impiedade dos que pensam com ácido nos dedos ou cheques na cabeça.
Ao vir ao Rio, depois de duas conferências, não quis receber a parca remuneração que eu e meu colega Benilton Bezerra Jr. tínhamos a lhe oferecer, dizendo: “Não, o que já me pagaram em outro lugar, é suficiente”. Depois, ao almoçarmos em um boteco da Urca e jantarmos em um restaurante à beira da Baía de Guanabara, não quis que pagássemos sua conta e a de sua mulher: “Não, ganhei dinheiro no Brasil e vou gastá-lo no Brasil”. Finalmente, depois de duas caipirinhas, ouvindo-nos, a mim e aos outros colegas, chamá-lo o tempo todo de “professor Rorty”, disse: “Por favor, me chamem de Dick”. Dias depois de sua partida, chegou-me pelo correio um livro enviado por ele. O livro tratava de um assunto que, em conversa, havia dito que me interessava. Eu já tinha esquecido da conversa; “Dick”, não!
Para Rorty, pensar era um modo particular de viver, e viver era estar atento ao Outro. Era um exercício constante de colocar-se em seu lugar e imaginar o que poderia torná-lo mais livre ou mais submisso, mais feliz ou mais miserável, para, então, decidir o que era humanamente útil, e, conseqüentemente, moralmente verdadeiro. Embora agnóstico, é impossível não escutar em suas palavras e atitudes ecos da fé cristã de Agostinho, que traduzo, com “licença rortyana”, como: “Quem sou eu” e, “Quem eu amo quando amo o Outro”. Embora irônico, e, às vezes, brincalhão e provocador, é impossível não ouvir no que ele disse os rastros da “infinita responsabilidade pelo Outro” de Lévinas. Embora um asceta do pensamento, cuja sobriedade resistia à sedução de quaisquer piruetas conceituais, é impossível não ver o espectro do insaciável desejo de justiça de Derrida, sublinhando, suavemente, tudo o que escreveu. Em suma, o pensamento rortyano é um condensado, um magnífico breviário do que melhor se produziu em matéria de ética no domínio da ética ocidental. E, apesar de ser ele avesso à mitificação ou á mistificação dos grandes nomes da Antigüidade filosófica, não há como deixar de comparar sua obra com o que disse o estóico Sêneca: “Se a sabedoria só me for concedida na condição de a guardar para mim, sem a compartilhar, então, rejeitá-la-ei: nenhum bem há cuja posse não partilhada dê satisfação”.
Rorty foi um exemplo de dignidade em forma de vida. Infelizmente, estou certo de que nenhuma gratidão sentida pode estar à altura da dádiva recebida. Resta, então, dizer novamente com Sêneca: “nada nos pertence daquilo que o acaso nos traz”. Mas acrescentar com Freud que fazer o luto dos seres queridos significa guardá-los no coração e na memória para fazê-los viver além da morte. Adeus Rorty. Ou melhor, adeus “Dick”.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

Os ladrões do tempo






Ano 20.311...


... no decorrer dos tempos a verdadeira natureza dos problemas ia-se revelando aos olhos alucinados da plebe.
Um dos descobrimentos mais marcantes foi, sem dúvida, o episódio dos “ladrões do tempo”:


Nos primeiros anos do 3º Milénio ( por volta de 2002) havia um grupo de indivíduos que tinham curiosamente a missão, ou a profissão, de fazer perder tempo aos demais. Havia-os de todas as categorias e género: eram os funcionários que faziam parar o tempo na burocracia do Estado, ou empresarial, até àqueles personagens cuja única missão era sair aos fins de semana para fazer perder tempo àqueles de também saíam para viver

...a missão destas pessoas era realmente fazer com que a vida livre em conjunto fosse impossível.

Estavam ainda na Internet, inundando de publicidade os diversos sites, fazendo impossível ler o correio electrónico, que chegavam ininterruptamente com aquele lixo, ou de outra forma qualquer, de tal modo que o resultado era uma sobredose de informação, completamente impossível de ser absorvida.

Estavam igualmente na rua, assaltando-te com panfletos publicitários, e todos os outros transeuntes, a quem abordavam sem parar de maneira a fazer-lhes perder tempo, e convertendo o contacto humano em algo artificial pelo uso de uma linguagem publicitária.

Parecia uma loucura pensar que estas pessoas estavam a trabalhar para o Sistema, mas a verdade é que, directa ou indirectamente, estavam-no a fazer

Eram pessoas que agiam sob as ordens de uma empresa que os havia contratado, e que se moviam com o objectivo de gerar a hipnose telepática da publicidade junto dos incautos

As empresas chegavam mesmo a publicar livros que eram convertidos em manuais de estudo nas escolas e nas universidades!

O resultado de tudo isto era um mundo inabitável, estranho, irreal, virtual

Acontecia o caso inclusivamente daquelas pessoas que queriam transformar o mundo, activistas da liberdade, e que passavam o seu tempo, encerrados, frente ao monitor, criando conteúdos web, muito ou pouco visitados, mas que eram exactamente os inputs da maquinaria e do complexo tecnológico industrial-capitalista..

Felizmente, pela mesma época, havia outras pessoas que se empenhavam em desertar deste sistema, regressando ao local , reinventando a convivialidade da cidade, exercendo o supremo direito de existir neste planeta, renunciando aos deus-dinheiro, e restabelecendo as relações naturais com a natureza, e que tentavam resgatar a fresca brisa da liberdade.

...e foram, estes últimos, os activistas que conseguiram transformar o mundo...


Fonte: (postado por viriat no Blog Pimenta Nergra - http://pimentanegra.blogspot.com/2005/02/os-ladres-do-tempo.html)

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

Maneiras de ser, maneiras de sentir do indivíduo hipermoderno






Por: Claudine Haroche


Diretora de Pesquisas do CNRS; Membro do Cetsah (Centro de Estudos Interdisciplinares: Sociologia, Antropologia e História), na École d'Hautes Etudes en Sciences Sociales, Paris. 85 rue d'Assas, Paris 75006. clharoche@aol.com




Fonte: (Ágora (Rio J.) vol.7 no.2 Rio de Janeiro July/Dec. 2004)


RESUMO


A fluidez das sociedades contemporâneas, intrinsecamente destituídas de limites, provoca modificações das estruturas, suscetíveis de colocar em causa a possibilidade mesma de estruturação, até mesmo da existência do eu. Indaga-se, aqui, se as maneiras – mais fundamentalmente a capacidade de sentir –, declinaram "em se sentir", separadas doravante do fato de experimentar sentimentos, não seriam agora sinônimo de sensação.
Palavras-chave: Indivíduo, sentido, sentimento.


ABSTRACT


The fluidity of the contemporary society, intrinsically destituted by limitations, induces structural modifications, susceptible of putting in grounds the same possibility of structuralization, even so at the existence of the I. It is questioned here if the reasons – most fundamentally the capacity of feeling – declined to "feeling", separated from the experimentation of feeling, wouldn't them be, now, synonym of sensation.
Keywords: Individual, sense, feeling.


"Quando nos preocupamos, como eu há meio século, com o problema da relação entre indivíduo e sociedade, revela-se de forma evidente que esta relação não é fixa." (N. ELIAS, La société des individus )





Em 1938, Mauss publica "Uma categoria do espírito humano: a noção de pessoa, a noção de 'eu'", texto fundador, que foi lido, comentado e criticado e fomentou numerosos outros escritos.1


Marcel Mauss



Interessado na história social da "noção de pessoa e da noção de eu", Mauss formulou o problema em toda sua extensão, mas de forma muitas vezes imprecisa, intuitiva – será criticado por isso –, e profundamente estimulante.


Escreve:


"Desculpem-me se, resumindo certo número de pesquisas pessoais e inúmeras opiniões de que podemos traçar a história, adianto mais idéias do que provas [...]. É evidente, sobretudo para nós, que jamais existiu um ser humano que não tenha tido o sentido não apenas do seu corpo, mas também de sua individualidade ao mesmo tempo espiritual e corporal." (MAUSS, 1950/1983, p.359)2


Mauss afirma que "a noção de pessoa, longe de ser uma idéia primordial, inata e claramente inscrita [...] no mais profundo de nosso ser, [...] é ainda hoje imprecisa, necessitando de maior elaboração, [que] ela se constrói lentamente, se clarificando, se especificando, se identificando com o conhecimento de si, com a consciência psicológica [...]" E prossegue, formulando um questionamento extremamente contemporâneo: "Quem sabe se esta 'categoria' que todos acreditamos fundada será sempre reconhecida como tal?" (1950, p.359/362).


Uma observação preliminar: neste texto não distinguiremos o eu das noções de pessoa, personalidade, caráter, indivíduo, individualidade. Todos estes termos referem-se a um mesmo campo paradigmático, relativamente impreciso e movediço, conforme encontramos em vários autores, por exemplo (para citar apenas alguns) em Mauss (1950/1983), Durkheim (1894/1988), Simmel (1908/1999) ou Elias (1987/1991).3


O que interessa aqui é a existência de um desengajamento, fato sublinhado de forma reiterada em relação às sociedades contemporâneas: levanto a hipótese de que este desengajamento – este descompromisso resultante das sensações contínuas exercidas sobre o eu – influencia profundamente e de maneira insidiosa as relações entre sensação, percepção, consciência, reflexão e sentimentos, levando ao esmaecimento das fronteiras entre objetos materiais reais e imagens virtuais. Desengajamento este que toca os limites do eu,4 com efeitos sobre as maneiras de sentir e sobretudo sobre a capacidade mesma de sentir.5


As sociedades contemporâneas, sob o impacto da globalização, tendem a se tornar sociedades que se transformam de maneira contínua, sociedades flexíveis, sem fronteiras e sem limites, sociedades fluidas, sociedades líquidas. Essas condições têm conseqüências sobre os traços de personalidade que estimulam, desde os mais contingentes e superficiais aos mais profundos, os tipos de personalidade que permitem sejam desenvolvidos, e mesmo encorajados, e finalmente sobre a natureza das relações entre os indivíduos.6



A fluidez intrinsecamente destituída de limites acarreta modificações nas estruturas, sendo suscetível de colocar em questão a possibilidade de estruturação e mesmo de existência do eu.7



Pode-se pensar imerso na fluidez, sob a pressão permanente e ininterrupta do fluxo? O indivíduo hipermoderno pode, privado de tempo, da duração exigida pelos sentimentos, experimentar outra coisa além de sensações?


Pretendo aqui discutir certos traços de personalidade do indivíduo contemporâneo – ligados e mesmo atribuídos à flexibilidade e à fluidez – através das maneiras de ser, de se comportar e, também, ainda que esta seja uma questão problemática, das maneiras de sentir, de exprimir e da capacidade mesma de vivenciar sentimentos.8


Retomo, nessa perspectiva, uma hipótese conjetural difícil de discutir, aquela que Lasch (1979/2000), entre outros, que fala do declínio dos sentimentos, de uma dificuldade e, mesmo, de uma relativa incapacidade de experimentar sentimentos nas formas extremas de individualismo, nas sociedades narcisistas.



Christopher Lasch


É oportuno, portanto, que nos detenhamos tanto nos escritos de Durkheim como nos de Simmel para recolocar questões que dizem respeito às categorias, às classificações, às próprias condições de observação nas sociedades contemporâneas: essas sociedades conhecem uma sobreposição de referências, uma tendência à confusão, ao esmaecimento das fronteiras do íntimo, do privado e do público e, de maneira geral, uma psicologização das relações (HAROCHE, 2001).


Durkheim, ao estabelecer que "a condição de toda objetividade é a existência de um ponto de referência, constante e idêntico, ao qual a representação pode ser reportada e que permite eliminar tudo o que ela tem de variável, partindo do subjetivo" (1894/1988, p.137), nos deixa apreender a extraordinária dificuldade das condições de observação das sociedades contemporâneas: o variável, que era para Durkheim próprio da subjetividade, tornou-se uma dimensão específica das sociedades contemporâneas em seu conjunto. A variabilidade confunde-se, hoje, com a flexibilidade, levando pouco a pouco à fluidez.


Mas, quando Durkheim enuncia as condições liminares, indispensáveis à observação, nos possibilita compreender que, face à aceleração e fluidez dos mecanismos nas sociedades contemporâneas, a possibilidade mesma de observação é colocada em causa: "se os únicos pontos de referência dados são eles mesmos variáveis – escreve –, se são continuamente diversos em relação a si mesmos, toda medida comum está ausente e não temos nenhum meio de distinguir em nossas impressões o que depende do exterior e o que vem de nós" (1894/1988, p.137).


Preocupado com o equilíbrio nós-eu, com a interação e com o sentimento 'do eu' que aí se exprime, Simmel (1908/1999) coloca, ao descrever os processos presentes na modernidade, um conjunto de questões desenvolvidas igualmente por Elias e Fromm. Percebendo na fluidez um estado estrutural fundamental, mas algo limitado, um estado comensurável, Simmel nos permite entender alguns dos elementos essenciais dos processos em ação na fluidez ulterior das sociedades contemporâneas. Reconhece a existência de uma imprecisão das interações devido ao seu caráter intrinsecamente instável. Coloca que as interações oscilam entre a continuidade e a descontinuidade, a certeza e a incerteza e, através do conceito de interação, questiona a suposta nitidez presente na fronteira entre indivíduo e sociedade. Simmel (1908/1999) releva o movimento incessante, a mobilidade permanente, restritos à esfera do indivíduo, anunciando assim as questões mais atuais das sociedades contemporâneas: as que se referem aos limites, às fronteiras, às capacidades e atributos, aos traços característicos do indivíduo.



George Simmel

Valendo-se da noção de interação, Simmel (1908/1999) enfatiza algo de essencial no que se refere ao vínculo social, sua permanência ou declínio, e também quanto os modelos de comportamento, a forma como se estruturam e influenciam os sentimentos. Sublinha aquilo com que os sociólogos pouco se preocuparam: a natureza, a fraqueza ou intensidade dos vínculos, a qualidade das interações, apontando que ela é função da duração: é a duração que permite medir sua qualidade.9


Simmel (1998) toma o exemplo da fidelidade, vendo-a mais como um efeito dos modos de vida, das maneiras de ser do que como a conseqüência de elementos originais e indizíveis: assim nos leva a concluir que são os comportamentos que, por seu turno, provocam os sentimentos.10
Necessário se faz, portanto, pensar o que acontece com a qualidade das interações quando a flexibilidade e a fluidez dos sistemas econômicos contemporâneos impõem o imediatismo, o instantâneo nas relações, deixando de lado a eventualidade a até a capacidade de engajamento e de inscrição no tempo.11


No final dos anos 1980, Elias resume e formula com concisão extrema todo um conjunto de itens antes abordado por Mauss e por Simmel e que permanece problemático: a questão do equilíbrio nós-eu, da pertença, dos vínculos entre comunidade e sociedade, da alternância entre os processos de integração e de desintegração, a questão da instabilidade. Sintetiza os questionamentos atuais sobre a gênese e a definição problemática de indivíduo, percebendo alguns dos problemas maiores da contemporaneidade. Reiteradamente insiste na necessidade de se superar a idéia de uma oposição entre "indivíduo" e "sociedade".


Norbert Elias

Escreve: "Neste século XX, tudo leva a pensar que não se trata de um problema pontual e individual, mas [...] de um traço fundamental da estrutura da personalidade social dos indivíduos da época mais recente." Acrescentando: "...a tônica do vínculo modificou-se de forma decisiva com a modificação estrutural mais profunda da relação do indivíduo com todas as formas de grupo sociais" (ELIAS, 1987/1991, p.208, 261, 262, 263),

Elias retraça e explica a gênese, as origens de uma insegurança psíquica profunda, seus efeitos sobre as estruturas da personalidade social dos indivíduos. Insiste sobre a auto-reflexividade contínua, que nasce das relações não permanentes, "a grande variabilidade das relações entre os indivíduos", o que "os força constantemente [...] a um exame de suas relações que é ao mesmo tempo um exame de si mesmo" (ELIAS, 1987/1991, p.264). Traz à tona os processos, as estruturas, mas também os efeitos psicológicos que provocam.


Em Fear of freedom (O medo à liberdade), Fromm (1972) se debruça precisamente sobre estes efeitos psicológicos, elaborando reflexões que permanecem decisivas sobre os traços de personalidade, de caráter, os modelos de comportamento encorajados por um tipo específico de sociedade. (FROMM, 1994).12





Erich Fromm


Enquanto Elias (1987/1991) preocupa-se essencialmente com o domínio e controle dos afetos, Fromm, ao focar os processos subjacentes na emergência do indivíduo, situa-se de certa forma como pioneiro: sua atenção se volta para a gênese desses afetos – a dúvida, o medo, a ansiedade e o declínio concomitante da espontaneidade dos vínculos.

Posto que a personalidade autoritária é fortemente integrada, são os processos presentes nas estruturas da personalidade autoritária – mais do que os traços de personalidade respectivos – que podem contribuir para a compreensão do indivíduo contemporâneo. A personalidade autoritária, assim como a personalidade contemporânea, ameaça a idéia de individualidade, a autonomia, a singularidade, o não-conformismo e mesmo a própria idéia de personalidade.


Lembrando que a estrutura da sociedade e da personalidade modifica-se profundamente no final da Idade Média, Fromm enfatiza que o indivíduo se libertou dos vínculos pessoais tradicionais de indivíduo a indivíduo: esta emancipação afetará de modo radical a estrutura do caráter.


Fromm (1941/1994) traz assim à tona os processos que levam ao isolamento e à impotência do indivíduo, a falta de proteção das condições novas que provoca efeitos psicológicos maiores: a liberdade do indivíduo faz nascer a dúvida, a incerteza, um sentimento de impotência e de insegurança; esta autonomia acompanha a emergência de um sentimento problemático, complexo e que é fonte de angústia, o sentimento do eu, o medo de perder o eu.13


Fromm insiste, então, sobre a importância decisiva de se compreender a questão da dúvida, da incerteza, e também os tipos de respostas que lhe foram dadas. O autoritarismo constitui um dos dois mecanismos psíquicos através do qual o homem procura escapar do isolamento e do sentimento de impotência, de confusão engendrados pelo mundo moderno. O outro modo de reação constitui o que Fromm chama de "conformismo compulsivo", que evita o autoritarismo. Ele observa que é o "conformista" e não o autoritário quem tem condições de responder às necessidades das sociedades industriais avançadas (FROMM, 1941/1994).


Este conformismo, em nosso ponto de vista, ainda que interiorizando o autoritarismo sob formas particularmente insidiosas, pode muito bem integrar o movimento e a atividade incessante e compulsiva, encarnando-se nos tipos de personalidade contemporâneos.


Alguns trabalhos recentes – consagrados sobretudo à família, às telas, à Internet, ao trabalho, à psicologia contemporânea e, de maneira mais geral, aos efeitos do mercado e da globalização sobre o indivíduo – centraram-se na questão do eu, do indivíduo, da personalidade, do caráter contemporâneo: Lasch (1979/2000 e 1984), Turckle (1995), assim como Castel (2001), Haroche (2003), Enriquez (1991, 2002), Sennet (1998, 2000), Bauman (1999, 2001), Gauchet (1998) e Kauffman (2001, 2002, 2003) interessaram-se pela personalidade contemporânea, pela maneira de ser um indivíduo nas formas extremas do individualismo contemporâneo. Atentos a diferentes dimensões, eles se detiveram sobre os traços de comportamento e de caráter específicos, tais como a indiferença, o desinteresse, o desengajamento, a falta de elã, a ausência de espontaneidade, o cálculo permanente, a instrumentalização de si e do outro, os comportamentos fugidios, o desvencilhar-se.


Lasch (1979/2000) atribui as modificações conhecidas pelo indivíduo contemporâneo à evolução da família. A família burguesa, observa, citando Horkheimer (1972), "tinha como função fabricar um certo tipo de personalidade, um tipo de caráter autoritário" (LASCH, 1979/2000, p.91), mas hoje a família educa, constrói um tipo de personalidade radicalmente diferente, um tipo de personalidade descomprometida, adaptada à flexibilidade, sem engajamento com a duração. Lasch sublinha que os pais se abstêm hoje em dia de inculcar em seus filhos preceitos e normas inúteis em um mundo em constante transformação; a família, portanto, forma o indivíduo para vínculos que não engajem: "a flexibilidade na educação tornou-se uma necessidade absoluta" (1979/2000, p.134-141).


Sherry Turckle (1995), em trabalhos que incidem sobre os efeitos produzidos na identidade pela presença contínua das telas, interessou-se pela flexibilidade e a fragmentação do eu. Chama a atenção para a profunda evolução ocorrida entre o período em que falávamos de "forjar a personalidade", considerada como um todo, e o presente, quando não cessamos de construir e reconstruir identidades múltiplas, o que leva a um tipo de personalidade flexível. Corroborando, de certa maneira, o que dizia Lasch, Turckle enfatiza aquilo sobre o qual insistirá também Sennet: "a estabilidade era outrora social e culturalmente valorizada (...). O que é agora decisivo é a flexibilidade, a capacidade de adaptação e de mudança", privilegiadas em detrimento da estabilidade, considerada como rígida (TURCKLE, 1995, p.255).


Estudando a questão do trabalho, Sennet percebe uma "erosão do caráter" que leva à flexibilidade do sistema. Vê na idéia de "carreira", atualmente abandonada em proveito do job, a encarnação desta flexibilidade. Sennet lembra, então, que no inglês do século XIV "um job era um fragmento ou um pedaço de qualquer coisa", o que é traduzido no presente pelo caráter descontínuo, a atividade fragmentada e fracionada – psiquicamente fragmentária – do trabalho" (SENNET, 1998).14


Sennet se questiona sobre como "preservar aquilo que tem um valor durável em uma sociedade [...] que se interessa apenas pelo imediato?" (1998, p.11). Interroga-se, também, quanto a "como cultivar engajamentos a longo termo no seio de instituições que são constantemente deslocadas ou perpetuamente reelaboradas?" (1998, p.11). O fluxo contínuo, provocando efeitos de alienação profunda e destruição do eu, leva Sennet a insistir sobre a necessidade de se "salvar o sentimento de si do fluxo sensorial" (1998, p.61).15


Gauchet (1992), desenvolvendo trabalhos próximos aos de Lasch e Sennet e vendo no "desengajamento da pessoa" um fenômeno inédito, esboçou um quadro de conjunto da psicologia contemporânea, no qual observa o desaparecimento da distância na relação com o outro e na relação consigo mesmo, uma "aderência a si", que se transforma em traço característico da personalidade contemporânea. Desenha, então, um modelo de personalidade paradoxalmente irrefletida e imersa na auto-reflexividade permanente, na qual "ser eu mesmo" não significa mais "saber o que leva a agir com vontade e liberdade interior", não é estar paralisado mas poder movimentar-se, deslocar-se constantemente (GAUCHET, 1992, p.177).


O movimento contínuo entrava a possibilidade de reflexão, a eventualidade de uma hesitação, a possibilidade de distanciamento, os processos de elaboração das percepções a partir das sensações. A personalidade hipermoderna aparece como sendo sem engajamentos – o indivíduo está "ligado, mas distante". Experimenta "a necessidade da presença dos outros, mas afastado desses outros" (GAUCHET, 1992, p.179), abstratos, inconsistentes, permutáveis, inexistentes. Sem continuidade, sem aspirações afirmadas na duração, desengajado, o indivíduo hipermoderno, "na aderência a si" e no deslocamento incessante, consegue ser ele mesmo apenas "na medida que pode se desprender de todo modelo ou adesão qualquer que seja" (p.179). Ele se comunica ou se vincula apenas sob o modo da prudência, do controle de si, da dominação: "ele se afirma não ao se comprometer", observa ainda, "mas ao se destacar" (GAUCHET, 1992, p.172).16


Bauman (2001) vai enfatizar, em termos similares, um desengajamento análogo nos comportamentos, vendo na mobilidade, no deslocamento incessante, a quintessência do poder nas sociedades contemporâneas.


Z. Baumann

Descrevendo a atmosfera do funcionário e seu modo de vida, o trabalho, a cidade, Bauman percebe que "nada permanece parecido, imutável, durante muito tempo, nada dura o suficiente para se tornar familiar, acolhedor e tranqüilo" (BAUMAN, 2001, p.46), nada responde às aspirações de vínculo e à necessidade de pertencimento. As lojas desaparecem, os rostos atrás dos balcões não cessam de mudar. Em resumo, observa Bauman, esmaece, desaparece "tudo o que é contínuo, estável e sólido [...] o que sugeria a existência de um quadro social durável, seguro, pacífico e pacificador. Esmaece, ainda, a certeza de poder se rever regularmente, com freqüência e durante muito tempo" (BAUMAN, 2001, p.47).


Todas essas observações constituem, pode-se dizer, "os fundamentos epistemológicos da experiência da comunidade. Ficamos tentados a dizer de uma comunidade estreitamente unida" (BAUMAN, 2001, p.47). É tal experiência que agora faz falta, é sua ausência que explica o declínio da comunidade: a falta de expectativas, de elãs; os vínculos da comunidade tornaram-se pouco a pouco consumíveis, "perecíveis" (2001, p.48).



Dick Pountain e David Robins pensam que o descomprometimento, o desengajamento, o frio, definem no presente o espírito do tempo. "Cool significa a capacidade de fugir, de escapar dos sentimentos, de viver em um mundo fácil, que questiona e recusa os vínculos possessivos" (BAUMAN, 2001, p.51-52).17

Os engajamentos duráveis, que constroem vínculos, em que a individualidade é valorizada pela exigência, foram substituídos por encontros breves, banais e intercambiáveis, encontros em que as relações começam tão rápido quanto terminam.


Os vínculos são mais frágeis e efêmeros. Hoje, o estar junto tende a ser breve, de curta duração e desprovido de projetos: o desengajamento aparece assim como um novo modo de poder e dominação. O comportamento das elites aparece imediata e fundamentalmente como "a capacidade de escapar da comunidade" (BAUMAN, 2001, p.57).


Em artigo recente, Dany Robert Dufour (2003) chama a atenção para a existência de uma estupefação profunda e mesmo de um niilismo, explicados pela aceleração da difusão do modelo de mercado. Ao descrever os processos presentes no niilismo contemporâneo que respondem a imperativos econômicos funcionais, Dufour esclarece as razões da fluidez fundamental das sociedades de mercado contemporâneas, quando se necessita de "tudo menos do que se possa entravar a circulação das mercadorias" (2003, 168), assim como seus efeitos psicológicos sobre o indivíduo, "efeitos desestruturantes que provocam uma profunda redefinição da forma moderna do sujeito" (2003, p.163).


Dufour afirma que o mercado esforça-se em suprimir as resistências do sujeito, as hesitações, as indecisões, as reflexões: "o mercado acomoda-se mal com um traço específico da forma sujeito", observa, "o livre-arbítrio crítico que leva, com efeito, a discutir tudo, a constantemente retardar a decisão de compra". O mercado procura "suprimir os vínculos, os elos, os sentimentos que não podem ser convertidos em valores mercantis": o mercado procura, assim, estimular continuamente as sensações para desenvolver o consumo e dispor, como diz Dufour, "de indivíduos definidos por nada além do que a necessidade de consumo sempre ampliada" (2003, p.170).18


Lasch falou do "porto" que significa a família para os indivíduos isolados em um mundo indiferente, sem coração, um mundo duro e frio. Elias, de forma mais genérica, discutiu a "necessidade elementar de calor direto e de espontaneidade que todo indivíduo experimenta e suas relações com os outros".19



Ora, a fluidez isola, entrava e evita os vínculos, os elos e os elãs: tende a produzir vínculos formais e superficiais, um falso vínculo e, até mesmo, a ausência de vínculo; ela se acompanha do medo do vínculo, dos outros.20


Penso ser relevante, então, que nos interroguemos sobre a imbricação, o papel respectivo das sensações e dos sentimentos no indivíduo contemporâneo; é importante que retomemos os questionamentos gerais presentes em trabalhos seminais, tanto em filosofia política e sociologia quanto em psicologia social: obras que questionaram a maneira como exprimimos os sentimentos, os momentos, a qualidade e a natureza daquilo que exprimimos e, também, daquilo que – deliberada ou involuntariamente – não exprimimos, aquilo que calamos ou recalcamos de maneira permanente e, além disso, obras que pensaram sobre a ausência e mesmo a incapacidade de vivenciar sentimentos espontâneos.21



Mauss, em texto de 1921 dedicado à "expressão obrigatória dos sentimentos", esboçou questões que se colocam hoje com insistência. Urge que o retomemos, pois sua leitura permite repensar a questão da pessoa e as maneiras de ser e de sentir do indivíduo contemporâneo (1950/1983).22



Observava então Mauss:



"Toda espécie de expressão oral dos sentimentos [...] é em essência não um fenômeno exclusivamente psicológico, ou fisiológico, mas fenômenos sociais, marcados eminentemente pelo signo da não espontaneidade e da mais perfeita obrigação" (1950/1983, p.269). Se Mauss admitia que os ritos mais simples que estudara "não têm um caráter completamente público e social", notava, no entanto, que "lhes falta em alto grau todo caráter de expressão individual do sentimento experimentado de forma puramente individual" (1950/1983, p.272).



Afastando a questão da espontaneidade individual, Mauss abordou os sentimentos através de modelos, de rituais, da ritualização dos sentimentos, sublinhando que "é preciso que eles sejam ditos, mas se é preciso dizê-los é porque todo o grupo os compreende" (1950/1983, p.277). Insistiu, assim, que "fazemos, portanto, mais do que manifestar nossos sentimentos, nós os manifestamos aos outros, pois é preciso manifestá-los. Manifestamos a nós mesmos exprimindo-os aos outros e em virtude dos outros" (1950/1983, p.278). Este é o sentido que apreendeu das convenções e regularidades que despertavam sua atenção.


Faz-se necessário agora abordar o estudo dos sentimentos pelo viés da relação ao tempo e buscar pensar as duas dimensões presentes na ritualização dos sentimentos: a ausência de duração e a ausência de sentido. A falta de tempo precede atualmente a expressão dos sentimentos? Fato desconcertante para nossa maneira de conceber os sentimentos como pertencendo à esfera do irracional e mesmo do indizível: a inteligibilidade, a perda do sentido na relação consigo e com o outro revela um entrave, um declínio e mesmo uma incapacidade não tanto de exprimir sentimentos, mas de experimentá-los, de senti-los?


Pode-se conceber e imaginar uma sociedade sem afetos, sem sentimentos; não se pode concebê-la sem rituais discerníveis, inteligíveis, reconhecidos.


A capacidade de sentir estaria declinando nas formas extremas de individualismo? A ininteligibilidade provocada pelas sensações contínuas teria ao mesmo tempo afastado a expressão dos sentimentos em relação aos outros e a si mesmo, a capacidade de vivenciar sentimentos? O sentir tenderia hoje a se atrelar e a se confundir com a sensação, o fluxo? Sentir pode ainda ser considerado como sendo da ordem do sentido e do sentimento inscrito na duração? São questões que, de meu ponto de vista, se situam no cerne da problemática do indivíduo hipermoderno.

REFERÊNCIAS



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Tradução da autora

Notas



1 Dentre os textos que lhe foram dedicados, destacamos: Carrithers, Collins e Lukes (org.) (1985), sobretudo os artigos de Louis Dumont, "A modified view of our origins: the Christian beginnings of modern individualism", p.93-123, e de Charles Taylor, "The person", p.257-282.

2 Estas questões são retomadas, desenvolvidas e comentadas em Collins e Lukes (1985). Lukes sublinha que é preciso talvez reconhecer aí uma "estrutura de sentimento", uma "atitude geral" ou, ainda, um tipo de crença "que perdura em diferentes formas culturais" (p.285). Carrithers, frisando que Mauss "deixa de lado tudo o que está ligado ao eu, à personalidade consciente enquanto tal", observa que no texto de Mauss "apenas o legal, o social ou ainda o político importa, pouco contam o psíquico ou o filosófico". E acrescenta: "o eu é colocado em aposição à pessoa [...] como se para as sociedades ocidentais modernas fossem a mesma coisa". Na verdade, observa, Mauss coloca que "pessoa = eu, e que o eu equivale à consciência" e que o fato de a "pessoa ter uma história social e legal não tem nada de surpreendente: a história social e legal é precisamente o que permite a especificidade da pessoa" (p.234-236).

3 A respeito do eu, do sentimento de si, ver Freud (1921/1981, 1923/1981) e Janet (1889/1989). Observa-se que, em Mauss (1950/1983), palavras referentes à pessoa aparecem vinculadas à família, enquanto que Elias (1987/1991) privilegiará o indivíduo.

4. Sobre as relações entre sensação, percepção e idéias, ver Locke (1690/2001). A obra trata de questões ligadas àquelas que Durkheim abordará mais tarde: a necessidade de que a ciência "afastando as noções comuns e as palavras que as exprimem, retorne à sensação, matéria-prima e necessária de todos os conceitos. É da sensação que provém todas as idéias gerais, verdadeiras ou falsas, científicas ou gerais" (DURKHEIM, 1894/1988, p.136). Sobre as relações entre reflexão e reflexo, ver Gauchet (1992), que cita e comenta uma passagem de Valéry sobre o ato reflexo: "a divisão e a distribuição dos atos-acontecimentos que estão em jogo na transformação [dos] atos reflexos ou automáticos em atos refletidos", acrescentando que o "ato reflexo é indivisível - e realizado exteriormente antes que se possa pará-lo. [...] O ato refletido [...] é um reflexo retardado - presumido - que uma sensibilidade especial - que tem ou não o tempo de intervir - reprime, equilibra ou sustenta". Gauchet retém a conclusão de Valéry: "o estado nascente do refletido é reflexo" (GAUCHET, 1992, p.162-163).

5 Tomo emprestado de Durkheim a expressão "maneiras de ser e de sentir": "as maneiras de agir, de pensar e de sentir que apresentam a notável propriedade de existirem fora das consciências individuais" (1894/1988, p.96).

6 A propósito da análise das sociedades contemporâneas, ver os trabalhos de Balandier, sobretudo Le dedale (1994). Sobre a questão do desengajamento nas sociedades contemporâneas, ver Bauman (1998, 1999).

7 A propósito da formação e mecanismos do eu, ver Anzieu (1985), Anzieu et al. (1993), Bauman (2000).

8 O caráter extremamente complexo da questão refere-se ao fato de podermos experimentar sentimentos e exprimi-los, podermos nada exprimir e nada vivenciar, podermos ainda vivenciar sentimentos sem exprimi-los, podermos também exprimir sentimentos sem vivenciá-los. Durkheim observou que "nem Locke, nem Condillac consideraram os fenômenos psíquicos objetivamente. [...] Eis a razão por que, ainda que em certos aspectos tenham preparado o advento da psicologia científica, ela nasceu apenas muito mais tarde, quando enfim se chegou à concepção de que os estados de consciência podem e devem ser considerados do exterior e não do ponto de vista da consciência que os experimenta" (1894/1988, p.123). Para uma primeira aproximação do estudo dos sentimentos, ver o conjunto das contribuições de Le ressentiment, organizado por Ansart (2002), particularmente Haroche em "Eléments d'une anthropologie politique du ressentiment. Genèse des sentiments dans les processus de frustration et de refoulement". Ver, também, "Reflexões sobre a personalidade democrática", in Duarte, Lopreato e Magalhães (orgs.) (2004).

9 Ver, também, "La fidélité. Essai de socio-psychologie" (SIMMEL, 1998).

10 Cf. Simmel (1998) e Haroche (2001).

11 Ver, sobre esta questão, Bauman (1995).

12 Ver também Reich (1933); Adorno e Horkheimer (1944); Polanyi (1944/1983). Mais recentemente, Castoriadis (1990, 1996, 1997).

13 Precisando os efeitos da emancipação evocados por Fromm, Elias (1987/1991) vai enfatizar que o indivíduo era ou devia ser autônomo. "O termo 'indivíduo' tem hoje essencialmente por função exprimir que toda pessoa humana, em todas as partes do mundo, é ou deve ser um ser autônomo que comanda sua própria vida e, ao mesmo tempo, que toda pessoa humana é em certos aspectos diferente de todas as outras, ou, talvez, deveria sê-lo. Realidade fatual e postulado confundem-se com facilidaade quando empregamos esta palavra" (p.208).

14 De acordo com Sennet (1998): "Em suas origens inglesas, a palavra 'carrière' designava uma estrada para os carros (carriages); aplicada finalmente ao trabalho, designava a via pela qual se seguia a vida em seus propósitos econômicos" (p.9).

15 O eu estaria conhecendo no presente um momento inédito de alienação. Conforme Marx (1844/1996, 1859/1985).

16 Gauchet (2003) enfatizou recentemente que "nos encontramos face a indivíduos que querem [...] existir por si mesmos, mas não pertencer" (p.334).

17 D. Pountain, D. Robins to cool to care, citado por Bauman (2001, p.51-52).

18 O que se traduz nas observações de Kauffman (2001), que percebe uma mutação antropológica profunda que concerne ao eu, a busca permanente de visibilidade de si, a produção mesma do eu na visibilidade e quantidade: "a identidade, outrora outorgada pelo lugar social, deve agora ser produzida em uma quantidade tão grande quanto possível, ampliada em seu ser pelas imagens e outros traços de si" (p.123).

19 Existem limites à variação para que a pessoa permaneça a pessoa? São necessários limites - leis, regras, normas - para que as pessoas sejam protegidas e, mais do que isso, para que possam existir. Cf. Edelman (1999).

20 Cf. Haroche (2001).

21 Sobre a importância da espontaneidade, ver Stuart Mill (1859/1999); Arendt (1951/1972). Sobre o recalque, ver Ansart (2002); Godelier (1996/2003).

22 Cf. "L'expression obligatoire des sentiments (rituels oraux funéraires australiens)", de 1921.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

Paulo Arantes: a violência institucional tornou-se uma política sistêmica




Reproduzo abaixo entrevista com o filósofo Paulo Arantes. As referências a G. Agambem não são explicitadas, mas os horizontes de reflexão de ambos acerca da "pós-modernidade" guardam muitas semelhanças.

(Fonte:http://www.unisinos.br/_ihu/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=11399)


17/12/2007

'A violência institucional ilegal é exercida hoje como uma política sistêmica. Governos não fazem mais a diferença'. Entrevista especial com Paulo Arantes


"Tortura-se desde sempre em qualquer cadeia pública brasileira. O escândalo dos anos de chumbo é que esta prática se estendeu aos brancos de classe média politicamente radicalizados. Quer dizer, o que havia de chocante era a inédita ampliação das classes torturáveis brasileiras, até então seletivamente restritas aos pobres, negros e presos”. A opinião é de Paulo Arantes em entrevista especial, por e-mail, à IHU On-Line.

Segundo ele, "a violência institucional ilegal é exercida hoje como uma política sistêmica”. Tanto é assim que, constata o filósofo, que "os governos não fazem mais a diferença. Foi assim com o FHC, e continua agora com o Lula, ambos equipados não obstante com os melhores secretários de direitos humanos disponíveis no mercado de ativistas bem intencionados".

Paulo Arantes é graduado em Filosofia pela Universidade de São Paulo (USP), doutor pela Universidade Paris X, Nanterre, com a tese Hegel: l'ordre du Temps (Paris: Harmattan, 2000), também disponível em português: Hegel: a ordem do tempo (2. ed. São Paulo: Hucitec, 2000). Arantes é docente emérito da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, departamento de Filosofia da USP. Escreveu inúmeras obras, das quais destacamos Um departamento francês de ultramar (São Paulo: Paz e Terra, 1994); Ressentimento da dialética (São Paulo: Paz e Terra, 1996); e Extinção (São Paulo: Boitempo, 2007).

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Considerando os últimos acontecimentos no Brasil, como a prisão da menor L. em uma cela masculina, o ataque a mendigos e a morte de crianças indígenas por desnutrição, como o senhor avalia o cumprimento dos direitos humanos em nosso país? Concorda com a declaração da ONU de que no Brasil podem estar havendo atos de tortura?

Paulo Arantes - As barbaridades que você acaba de evocar dentre os descalabros mais recentes em foco na mídia – e bastaria apenas uma, como disse certa vez Borges , interrompendo um relato de atrocidades perpetradas pela ditadura argentina – dão bem uma idéia do novo ciclo histórico de violência que paradoxalmente se abateu sobre o Brasil desde o fim do regime militar. Registro de violações como o da ONU sempre ajudam, mas acabam contribuindo para a anestesia geral na medida em que tudo acaba virando uma questão de indicadores mais ou menos desalentadores.

Comecemos pelo básico: tortura-se desde sempre em qualquer cadeia pública brasileira. O escândalo dos anos de chumbo é que esta prática se estendeu aos brancos de classe média politicamente radicalizados. Quer dizer, o que havia de chocante era a inédita ampliação das classes torturáveis brasileiras, até então seletivamente restritas aos pobres, negros e presos. Não deixa de ser inquietante reparar que é precisamente esta a circunstância histórica que viu nascer o que viria depois a se institucionalizar como uma política de direitos humanos e igualmente não por acaso desde então acoplada à eterna promessa de uma “verdadeira” política de segurança pública, em contraposição à usual, baseada na escalada punitiva, desde o enfrentamento tipo “guerra urbana” até o endurecimento contínuo da execução penal. Voltando ao básico.

Nunca é demais lembrar que o gatilho da violência institucional ilegal contra os de baixo no Brasil foi disparado no momento em que o Código Criminal dos primeiros tempos do país independente restabeleceu a tortura e a punição sem encarceramento dos escravos, de cuja força de trabalho seus proprietários não poderiam ser privados. Vem dessa atualização liberal do escravismo a tradição de uma polícia com plenos poderes de arbítrio, até às prerrogativas de vida e morte que vemos hoje. Essa, a matriz histórica da catástrofe humanitária em que o Brasil está se tornando. Resta a contribuição da regressão global em curso, a confluência do grande capital corporativo com o sistema local da violência: penso, por exemplo, no episódio de alguns anos atrás, quando se verificou que um hiper-mercado Carrefour havia contratado seus serviços de segurança junto ao tráfico numa favela ao lado. Parcerias.

IHU On-Line - O que a postura das autoridades de segurança e saúde revela sobre a estrutura política do governo Lula a respeito desses temas?

Paulo Arantes - Mostra que os governos não fazem mais a diferença. Foi assim com o FHC, e continua agora com o Lula, ambos equipados não obstante com os melhores secretários de direitos humanos disponíveis no mercado de ativistas bem intencionados. Que a violência institucional ilegal é exercida hoje como uma política sistêmica. E não adianta dizer que as coisas mudarão quando forem enfim controladas e unificadas as vinte e sete polícias autônomas dos 27 estados, que além do mais são três, federal, militar e civil. Já é assim na Colômbia (polícia unitária e exército dando combate direto ao narcotráfico). Mas, por acaso, mano dura com obras públicas, isto é, o modelo Medellín – é o que se está buscando? Não é só no Brasil que nos defrontamos com um Estado de Direito cuja polícia pode agir como um grupo de extermínio.

O Estado de Direito encontra-se à deriva no mundo inteiro: ainda é norma incontornável, porém cada vez mais inefetiva. Nos países centrais, tornou-se quando muito uma ordem política mínima encarregada de tutelar os direitos subjetivos para o terço superior da população entrincheirado na fortaleza do conforto material capitalista. Pelo menos é assim que raciocina um jurista como Danilo Zolo: o Estado de Direito continua insubstituível e em vigor, mas tudo se passa como se estivesse suspenso.

IHU On-Line - Que contradições o senhor percebe entre a duplicação do orçamento para rearmar o exército brasileiro a fim de defender nossas fronteiras e a situação da segurança pública nacional, mal-equipada e muito mais reativa do que preventiva?

Paulo Arantes - Nenhuma. A fronteira que realmente conta é interna e social, a função de polícia das forças armadas é questão de tempo, e está sendo testada no laboratório cruento do Haiti. Quanto ao descalabro da segurança pública nacional, não é uma questão de maior ou menor dotação orçamentária. Um aparato policial bem equipado continuaria amalgamando os ilegalismos, em cujo limiar os pobres estão condenados a sobreviver, com a condição descartável de indivíduos fora do direito.

IHU On-Line - Como o senhor conecta a situação social brasileira com a situação mundial da globalização, sobretudo de mazelas como a violência, fome e educação precária? Esses problemas tendem a se aprofundar ou é possível vislumbrar uma solução?

Paulo Arantes - Se fosse realmente para valer, a declaração da ONU deveria reservar um tópico especial para os Estados Unidos, a globalização da tortura e crimes conexos, como seqüestro de suspeitos e a proliferação de campos em que prevalece a lógica da exceção. O que era operação encoberta durante a Guerra Fria tornou-se objetivo explícito de memorandos oficiais legitimadores do limbo jurídico para o qual se está empurrando uma espécie de classe torturável global, algo como uma humanidade excedente em que todos são a rigor clandestinos. Daí a guerra suja de contenção permanente desse povo subterrâneo e o decorrente embrutecimento do conjunto da sociedade.

IHU On-Line - Qual deveria ser a postura dos intelectuais sobre temas como os direitos humanos e segurança pública? Nesse sentido, como o senhor percebe o caso brasileiro?

Paulo Arantes - O Estado hoje é a um só tempo, e cada vez mais, penal e social. A massa carcerária barbarizada aumenta na mesma proporção dos pobres assistidos. Além de vigiar e punir, é preciso “cuidar”. Novos fatores de risco e populações vulneráveis exigem novos gestores dessas emergências. Daí o número proliferante de núcleos de estudo da violência que já não se distinguem mais de agências ideológicas da Lei e da Ordem, assim como o Terceiro Setor vai tocando programas em que direito se confunde com prestação de serviço. Se um militante dos direitos humanos também se encarrega de segurança pública, só um doido recusaria este tipo ideal. Um cínico diria, porém, que ele oferece a vantagem suplementar de livrar da má consciência o atual esforço punitivo, enquanto acena para o povo dos porões com a eventualidade de uma janela na mídia das violações espetaculares.

IHU On-Line - Em entrevista recente, o senhor diz que votar nem pensar. Não seria essa uma forma de aprofundar a apatia política e reiterar um niilismo que só solidificaria a falta de perspectivas em nossa política?

Paulo Arantes - Nietzsche distinguia niilismo ativo e passivo. Sancionar a oligarquia política de quatro em quatro anos me parece ser um caso da segunda espécie.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

A urgência do clima



Reproduzo abaixo três notícias sobre o aquecimento global, em vista da Convenção sobre o Clima em Bali, ora em curso.

A entrevista do representante norte-americano em Bali ficou para o final, propiciando ao leitor uma visão "em perspectiva".

A par das questões acerca do nosso atual "modo de vida", deve-se considerar que o presente já começa a pagar o preço pelos abusos cometidos no passado, em especial pelos cidadãos do chamado "mundo desenvolvido". Ou seja, não se trata apenas de rever o progresso futuro, mas, sobretudo, rever o "progresso" passado.

A rotina dos cidadãos norte-americanos e europeus já vem comprometendo, desde há muito tempo, a vida em todo o planeta.

Os cidadãos desses países devem se conscientizar que seu estilo de vida já cruzou a linha de insustentabilidade há pelo menos três décadas e, dessa forma, deverão aceitar "perdas" em relação ao padrão atual - seja "por bem" (uma revisão da ideologia e da cultura do narcisismo e do cinismo) ou "por mal" (uma catástrofe em escala mundial).

O dogma do "crescimento sem limites e ininterrupto" deve ser abandonado, por amor aos nossos filhos e netos.


O problema ambiental se põe, em última análise, como um dos grandes - senão o maior - "resíduo" do Capitalismo.


1- Mudança climática pode aprofundar desigualdades entre países


“Há uma crescente tomada de consciência sobre a necessidade de agir rápido, de começar a adotar medidas que reduzam estes riscos”, argumentam Emal Dervis e Leire Pajín. E acrescentam que o último Relatório sobre o Desenvolvimento Humano do PNUD traz “uma segunda poderosa razão para colocar-se em marcha de forma imediata: um atraso nas medidas teria graves conseqüências para o desenvolvimento humano em alguns dos lugares mais pobres do mundo, e poderia minar os esforços para combater a pobreza”.


Além disso, o aquecimento global terá conseqüências econômicas nada desprezíveis: “Se não agirmos agora, a mudança climática aprofundará as atuais desigualdades globais de renda”, enfatizam. Uma ação coerente para mitigar a mudança climática requer uma concertação mundial, que passa por investimentos, tecnologia, mudança da matriz energética e preservação das florestas. Emal Dervis e Leire Pajín são, respectivamente, administrador do PNUD e secretária de Estado de Cooperação Internacional.Reproduzimos na íntegra o artigo publicado no El País, 7-12-2007.
A tradução é do Cepat.
Agora sabemos que o clima está mudando significativamente e sabemos, como declarou o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) da ONU, que a emissão de gases de efeito estufa pela atividade humana é a principal causa dessa mudança.
À medida que o nosso planeta se aquece cresce o risco de que toda a humanidade se defronte com uma série de conseqüências catastróficas devidas ao aquecimento global.
Ao derreterem-se as geleiras na Groenlândia e a na Antártida Ocidental, muitos países poderiam submergir. Uma modificação no curso da corrente do Golfo poderia acarretar drásticas mudanças climáticas e grande parte da biodiversidade poderia desaparecer para sempre.
Mesmo que se trate de riscos de longo prazo e restem muitas incertezas, há uma crescente tomada de consciência sobre a necessidade de agir rápido, de começar a adotar medidas que reduzam estes riscos.
O último Relatório sobre o Desenvolvimento Humano do PNUD, “Combatendo a mudança climática: solidariedade humana num mundo dividido”, acrescenta, além disso, uma segunda poderosa razão para colocar-se em marcha de forma imediata: um atraso nas medidas teria graves conseqüências para o desenvolvimento humano em alguns dos lugares mais pobres do mundo, e poderia minar os esforços para combater a pobreza.
Os países mais pobres sofrerão, a curto prazo, a maior parte da carga da mudança climática: maiores secas, catástrofes meteorológicas extremas, tempestades tropicais e elevação do nível do mar.
Como assinala o Relatório do PNUD que recentemente apresentamos em Brasília ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, na Etiópia, por exemplo, uma criança que nascer durante um ano de seca aumenta em 35% as probabilidades de estar desnutrida.
Se não agirmos agora, a mudança climática aprofundará as atuais desigualdades globais de renda. Todos os investimentos que fizemos para alcançar os Objetivos do Milênio poderiam ficar desvirtuados e se poderia produzir um atraso nos avanços em desenvolvimento humano conseguido.
De fato, mesmo que se produzisse uma mitigação imediata e efetiva, as emissões do passado já tornam inevitável um sério impacto em grande parte da África, em muitos pequenos estados insulares e nos grandes deltas fluviais da Ásia. Por isso, para além de aplacar a mudança climática, devemos também ajudar para que as populações mais atingidas possam fazer frente e adaptar-se ao inevitável.
Uma ação coerente para mitigar a mudança climática requer a participação global na redução de emissões. Mas, tanto por justiça como por factibilidade, os países ricos devem dar o exemplo com o primeiro passo. Os países em desenvolvimento contribuíram muito pouco para a quantidade de gases de efeito estufa já existentes na atmosfera e os ricos têm os recursos e a tecnologia necessárias para enfrentar uma redução de emissões imediata e profunda. Por sua vez, os países de renda média contam com capacidade para abordar seu crescimento de modo sustentável; se bem que teriam maior capacidade de aplicar um novo modelo de crescimento se contassem com o respaldo dos países industrializados.
Um dos eixos decisivos para alcançar o êxito passará, sem dúvida, por facilitar o acesso ao financiamento e tecnologia que contribuam com o esforço de mitigar, especialmente agora que os gases de vários países de renda média se incrementam de forma significativa.
A mitigação efetiva exige generalizar o estabelecimento de um preço para as emissões de gases de efeito estufa. Os sistemas incipientes de fixação de preço mostram já como isto conduz a profundas transformações no modo como produzimos e usamos a energia. Ao mesmo tempo, os países em desenvolvimento necessitam enormes investimentos para proporcionar a energia necessária para favorecer o crescimento econômico, a criação de emprego e melhorias em desenvolvimento humano. É essencial que estes investimentos sejam compatíveis com a proteção do sistema climático. Porque é o clima de todos que ficaria protegido mediante o uso de tecnologias mais limpas, em consonância com outras ações. Isto acarretará gastos adicionais, especialmente para muitos países de renda média: por isso, é necessário encontrar as fontes de financiamento adequados que lhes permitam paliar esses custos adicionais.
Além de mudar os nossos hábitos energéticos, devemos aplicar com decisão outras medidas, incluindo a proteção das florestas tropicais. Grande parte desta massa florestal se encontra no Brasil e outros países de renda média. Quando esses países protegem suas selvas, estão proporcionando um serviço universal à humanidade.
O Brasil e outros países em desenvolvimento, sem dúvida, devem fazer um esforço de proteção de suas florestas, contribuindo deste modo para a redução global de emissões. Mas esses esforços não poderiam se aprofundar caso esses países contassem com o apoio financeiro adequado da comunidade internacional? Um apoio financeiro que, sem dúvida, deve ser especialmente relevante nos países menos desenvolvidos.
Apoiar as políticas de mitigação nos grandes países em desenvolvimento assegurará que diminuam os riscos de catástrofes meteorológicas e melhore o rendimento dos investimentos que o mundo faz para promover o desenvolvimento. É o momento de uma ação concertada dos governos.
Não há desculpas.


2- A Amazônia, vilã ou vítima? Um artigo de Washington Novaes


Whashington Novaes

O jornalista e ambientalista Washington Novaes em artigo para o jornal O Estado de S.Paulo, 14-12-2007, analisa o papel que joga a Amazônia no contexto das mudanças climáticas. Segundo ele, “goste-se ou não, a Amazônia brasileira continuará no centro da discussão mundial sobre clima, recursos naturais, biodiversidade”.

O jornalista destaca que na Amazônia está um terço da biodiversidade brasileira - que representa de 15% a 20% da diversidade biológica do planeta e quase 80% do fluxo de água em território brasileiro - que representam 12% do fluxo mundial.
Eis o artigo.

No momento em que este texto é escrito, ainda não há decisões finais na reunião da Convenção do Clima em Bali. Embora nenhum país costume abrir o jogo antes do prazo final (nesta sexta-feira), parece pouco provável que se chegue a mais que uma declaração de intenções sobre o desejo de um acordo para o período pós-Kyoto. Os Estados Unidos deixaram claro que não aceitarão compromissos de redução de emissões, nem mesmo menção a metas numéricas. E isso no momento em que a Agência Internacional de Energia prevê um aumento de 55% na demanda mundial por energia até 2050; prevê também que os países em desenvolvimento responderão por 74% do aumento e que até 2030 nada menos de 84% desse aumento terá de ser suprido por energias derivadas da queima de petróleo, gás e carvão. Situação complicada, já que se recomenda redução de pelo menos 50% nas atuais emissões até meados do século, para evitar que a temperatura planetária suba além de 2 graus Celsius e tenha conseqüências ainda mais graves que as de hoje.Mesmo a questão do desmatamento em florestas tropicais, inclusive na Amazônia - ele responde hoje por uns 20% das emissões totais -, esteve envolta em certa confusão. Inclusive pelo ângulo brasileiro. O embaixador Sérgio Serra assegurou que “o Brasil não quer incluir florestas nas negociações”. Já o chanceler Celso Amorim disse que a Amazônia “é a grande vítima das mudanças do clima, não sua causadora”. Se os países industrializados não reduzirem suas emissões, afirmou, “a Amazônia provavelmente desaparecerá”. No meio da semana, em evento paralelo, a delegação brasileira anunciou a criação, em 2008, de um fundo voluntário para ajudar a reduzir as emissões por desmatamento. Estabeleceu a meta interna (não como compromisso no âmbito da convenção) de 19,5 mil quilômetros quadrados anuais para o desflorestamento, que é a média do desmatamento na Amazônia entre 1995 e 2006 (segundo a secretária de Mudanças Climáticas, Thelma Krug, 59% do total das emissões por desmatamento e queimadas provêm da Amazônia). Não ficou claro se a redução atingirá outros biomas - só no cerrado, os últimos números do Instituto Sociedade, População e Natureza (ISPN) apontam para uma perda anual de 22 mil quilômetros quadrados.Goste-se ou não, a Amazônia brasileira continuará no centro da discussão mundial sobre clima, recursos naturais, biodiversidade. Ali, segundo estudo recente de várias instituições, estão estocadas 47 bilhões de toneladas de carbono, quase o dobro das atuais emissões anuais de poluentes no mundo; está um terço da biodiversidade brasileira (que representa de 15% a 20% da diversidade biológica do planeta); estão quase 80% do fluxo de água em território brasileiro (que representam 12% do fluxo mundial); estão importantes mecanismos de equilíbrio e regulação do clima no continente sul-americano e nos oceanos. Mas o desmatamento continua alto: 11.224 quilômetros quadrados de agosto de 2006 a julho de 2007 e uma nova tendência de aumentar - 8% entre julho e setembro deste ano, com altas de até 600% em Rondônia em setembro, 50% no Pará e em Mato Grosso de julho a setembro.Significativamente, o aumento exponencial em Rondônia coincide com o período em que o Estado está assumindo o licenciamento para desmatamento, que antes cabia ao governo federal. E isso coloca a questão: se o governo federal não tem estrutura para um licenciamento e monitoramento competentes, como será com o governo estadual e/ou municipal, muito menos provido de recursos, muito mais sujeito a pressões dos poderes político e econômico locais? Embora a descentralização seja teoricamente desejável, na prática os problemas se têm verificado em todas as partes do País onde ela ocorre. Na verdade, parece muito mais um “repasse do mico” que qualquer outra coisa. E, segundo o Imazon, 83% do desmatamento entre 1995 e 2007 se deve “exclusivamente às oscilações dos preços da soja e das carnes no mercado internacional” - o que agrava as pressões locais.Nove ONGs estão propondo um pacto pela valorização da floresta e pelo fim do desflorestamento na Amazônia, que permita chegar ao desmatamento zero até 2010. Custaria R$ 1 bilhão por ano - entre outras coisas, pagando, por exemplo, ao proprietário para não desmatar os 20% de floresta a quem direito em sua propriedade. Mas grande parte do desmatamento é ilegal e é feito inclusive nos 47% de terras públicas do bioma, que os governos não conseguem fiscalizar. Recentemente, publicou-se que o Ibama tem 58 fiscais no Estado do Amazonas, com 1,6 milhão de quilômetros quadrados, ante 61 no Distrito Federal (5,8 mil km2). O monitoramento no sul do Amazonas é feito a 500 quilômetros de distância, por satélite.A professora Bertha Becker, cientista de alta reputação na área, observa que “a floresta precisa ter valor econômico; se não tiver, vai perder para a soja e a carne”. Outro cientista renomado, o professor Ignacy Sachs, afirma que o bioma pode vir a ter a “civilização da biomassa” - geradora de alimentos, combustíveis, cosméticos, medicamentos - se investir pesadamente em formação de mão-de-obra e ciência. A Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência também já propôs forte investimento em pesquisa da biodiversidade e formação de cientistas, ao lado do desmatamento zero e da utilização de 700 mil quilômetros quadrados já desmatados para a expansão de atividades econômicas. Mas como fazer, se outros especialistas lembram que custa três vezes menos promover um desmatamento ilegal do que trabalhar de acordo com a lei?Por difícil que seja aceitar, até aqui não se fez melhor que os índios para a conservação da floresta e dos serviços naturais, principalmente na Amazônia - repetiu na semana passada o presidente da Funai, Márcio Vieira, ao visitar a devastada Rondônia.


3- Última década é a mais quente da história


Os termômetros da OMM (Organização Meteorológica Mundial) registraram as mais altas temperaturas da história no decênio entre 1998 e 2007. O anúncio ocorreu ontem em Bali, durante a conferência do clima. A notícia encontra-se nos principais jornais do dia de hoje, 14-12-2007.O ano de 2007, segundo a instituição, caminha para ser o sétimo mais quente desde que começaram o registro das temperaturas, disse Michel Jarraud, secretário-geral da OMM. A temperatura média deste ano está 0,41C superior a média dos anos 1961-1990. Além disso, 2007 registrou desastres meteorológicos de excepcional violência, disse Jarraud, em Bali.Os registros vindos do Ártico também carregam um recorde negativo. A superfície do gelo polar, que no final do verão boreal era de 4,28 milhões de km2, está 39% menor em relação a medida média do período que vai de 1979 a 2000. E, ainda, 23% mais baixa do que o menor número já registrado. Este outro recorde negativo havia ocorrido em 2005.Desde o início do século 20, diz o informe da OMM, a temperatura média do planeta aumentou em 0,74C. Mas este aumento não teve um comportamento uniforme. Nos últimos 50 anos do século, as temperaturas aumentaram em um ritmo equivalente ao dobro do período anterior.O estudo da OMM, diz Jarraud, confirma a evidência de que o aquecimento global é fruto da atividade humana. O dirigente da instituição também faz parte do IPCC, o painel do clima da ONU.



4- ‘Não dizemos para os outros o que devem fazer’. Entrevista com o representante dos EUA na Cúpula de Bali


C. Boyden Gray, embaixador dos Estados Unidos na União Européia e um dos negociadores de George W. Bush na Cúpula do Clima de Bali. Em entrevista ao El País, 12-12-2007, afirmou que os Estados Unidos estão fazendo mais para mitigar os efeitos da mudança climática do que todos os outros países juntos.
A tradução é do Cepat.


Eis a entrevista.


A mudança climática é uma verdadeira ameaça ou está superdimensionada?
Não sei. Mas estou convencido de que precisamos muito, muito rápido, diversificar as nossas fontes de energia do petróleo e do gás por razões de segurança energética. Isto é necessário mesmo que as avaliações da mudança climática sejam exageradas.


Como vê o encontro de Bali?
Estão pré-julgando resultados que deveríamos estar debatendo e não decidindo.


Refere-se à redução dos gases de efeito estufa entre 25% e 40% para os países desenvolvidos em 2020 como sugerem as propostas?
Sim. É uma impossibilidade física. Não apenas para os EUA. Tampouco a Europa pode cumprir esse objetivo. O estranho de Bali é que tudo caminha na direção de pedir menos aos países em desenvolvimento e não podemos fazer isso. Precisamos da China e da Índia cooperando.


É fisicamente impossível essa redução de emissões?
Acredito que sim. A Europa fala em reduzir as suas emissões em 20% para 2020. Vai ser muito difícil.

Por que considera que a União Européia insiste nessa meta se não pode cumprir?
Não sei. Nosso Congresso tem dito que não vai deixar os países em desenvolvimento fora das metas por muito tempo. Ninguém acredita que esses países devem ter o mesmo nível de redução que os EUA e a Europa, mas precisam assumir algum compromisso.


Algumas obrigações?
Sim. Pode ser nos primeiros anos um teto para o crescimento e que a partir daí reduzem as suas emissões. Não acredito que a União Européia aceite até isso. Os países em desenvolvimento vão continuar fabricando produtos para exportação se não se estabelecem limites para as emissões.


Será um fracasso para os EUA se esse ‘mapa final’ incluir essa cifra de redução? As Nações Unidas afirma que não se trata de um objetivo, mas sim de uma meta.Há um mínimo, 25%, e isso todo mundo pode ver que é um objetivo. Nós temos uma política muito agressiva para os transportes em 2020, enquanto que a União Européia não o inclui. Vamos substituir 20% da gasolina em 2020 e há muitos especialistas dentro do governo que não garante que isso venha a acontecer sem nova tecnologia. Eu acredito que conseguiremos.


Acredita que o mundo entraria em recessão com esses objetivos?
Meu temor é que o público americano rejeite. E me pergunto se a opinião pública européia aceitaria essa obrigação. Basta dos carros grandes na Alemanha. Isto seria o fim da indústria alemã de automóveis.


Os EUA aceitariam objetivos obrigatórios?
Já os temos.


Mas em um acordo internacional, aceitariam?
Estamos negociando.


Estão abertos?
É claro. Temos que substituir o petróleo e o carvão, conseguir carbono limpo, evitar que se queime as florestas tropicais, reduzir a poluição das cidades da Ásia. Estes poluentes são assassinos e há milhões de mortos em todo o mundo. Se abandonarmos os combustíveis fósseis evitaremos esses problemas. Temos que substituir os combustíveis fósseis por razões de saúde pública. Mas queremos isto bem feito, como se fez no protocolo de Montreal. O presidente propôs uma lei para se chegar em 20% de biocombustível que será obrigatório. Kyoto não chega a tanto. Não há como querer que o Reino Unido obrigue a Espanha a cumprir seus objetivos. Mas se nós não fizermos o que o presidente propõe, temos os tribunais. Massachusetts, Califórnia ou alguns ecologistas podem nos levar aos tribunais. E garanto que o farão. Não dizemos que vamos fazer algo e depois olhamos para o outro lado.


Como a Europa?
Eu não disse isso.


O primeiro ministro australiano, Kevin Rudd, vem a Bali ratificar Kyoto. O que lhe diria?
Sobre o quê?


Sobre o fato de que deixará apenas os EUA fora do protocolo.
A Austrália já alcançou os objetivos que tinha para com o Protocolo de Kyoto.


Um chinês emite 4 toneladas de CO2, um americano 20. É justo pedir que reduzam?
A China diz que o CO2 da atmosfera é responsabilidade do Primeiro Mundo e isso não é correto. Em breve irá se publicar um estudo que diz que tendo em conta o desmatamento, a nossa contribuição e a da China é a mesma no último século.Onde está este estudo?Sairá em breve.

Não é raro ver a maior superpotência isolada...
Não estamos isolados. Temos os limites mais agressivos que estão em marcha, antes mesmo que a Europa tenha os seus. Estamos gastando mais dinheiro em tecnologia do que todos e temos liderado tratados que tem feito mais pela mudança climática do que Kyoto. Sabe qual foi o resultado de Montreal?Queda reduzida da emissão de clorofluorocarburos.E isso solucionou o problema da camada de ozônio. Esse acordo supôs uma redução de gases de efeito estufa 10 vezes maior do que Kyoto.

Mas a concentração de CO2 continua aumentando e é o principal gás do efeito estufa, não os cloroflurocarburos.
Para os europeus e para muitos países em desenvolvimento lhes preocupa que com o dinheiro que estamos gastando, privado e público, geraremos estas tecnologias e então as compartilharemos com os europeus.