segunda-feira, 8 de outubro de 2007

Máquinas terão consciência até 2020, diz futurólogo

Por Peter Moon, especial para o IDG Now!
Publicada em 03 de outubro de 2007 às 07h00
Atualizada em 08 de outubro de 2007 às 03h37

São Paulo - O futurólogo da British Telecom, Ian Pearson, prevê advento de máquinas inteligentes e conexão do cérebro com a internet.

Você pode não concordar com ele. Pode mesmo não acreditar em nada do que ele diz. Mas a British Telecom acredita. Ian Pearson é o futurólogo de plantão da BT, a gigante de telecom do Reino Unido. Pearson é pago para imaginar aonde as tecnologias atuais irão nos levar. Inteligência Artificial, modificação genética do ser humano, vírus inteligentes, civilizações imaginárias, a Second Life 10.0 e cenários terríveis como o do Exterminador do Futuro fazem parte do vasto leque de possibilidades na mira deste cientista.
De posse de novas informações, todos os anos ele atualiza a sua Linha Tecnológica do Tempo, onde se lê que a seleção inglesa de futebol irá perder para jogadores robôs em 2051.
Nesta entrevista exclusiva feita por telefone desde Londres, onde mora, Pearson fala sobre o seu ofício, pondera sobre os problemas para entender as máquinas inteligentes quando estas surgirem, e alerta para os grandes dilemas ético-morais decorrentes do avanço tecnológico que a humanidade terá, mais cedo ou mais tarde, que enfrentar.

Há 10 anos, em maio de 1997, o campeão mundial de xadrez Gary Kasparov foi derrotado pelo supercomputador Deep Blue da IBM (leia “Vitória da máquina sobre o homem completa dez anos”). Será que aquele foi o primeiro vislumbre de uma nova forma de inteligência, como o próprio Kasparov declarou?

Sim, este é um bom exemplo do que se pode fazer com uma inteligência baseada em computadores. O que ficou claro é que a Inteligência Artificial não precisa fazer as coisas do mesmo jeito que nós humanos para atingir os mesmos objetivos que nós usamos nossa inteligência para alcançar. Deep Blue não funcionava do mesmo modo que uma pessoa. Deep Blue tinha uma enorme capacidade de processamento de dados. Não era uma máquina consciente. Era apenas uma máquina muito burra que não tinha ciência da sua existência. Ela apenas mastigava números para ser capaz de resolver problemas cuja solução requer uma das mais refinadas mentes humanas do planeta.
Mas foi um grande avanço. Acredito que foi um divisor de águas importantíssimo para o pensamento. Muitos entre nós percebemos então que não seria necessário identificar exatamente como o cérebro funciona para resolver um monte de problemas que requerem inteligência, porque para solucionar estas coisas pode-se usar computadores no lugar de uma grande máquina autoconsciente.
Não obstante, acredito que a tarefa de produzir máquinas com consciência ainda é importante. Nós provavelmente construiremos máquinas conscientes em algum momento entre 2015 e 2020, creio eu. Mas elas não serão como você e eu. Serão conscientes de si mesmas e a sua vontade será consciente mais ou menos do mesmo jeito que a sua e a minha, mas funcionarão de um modo bem diferente. Serão alienígenas. Terão um modo diferente do nosso de pensar, mas não obstante ainda assim elas irão pensar. Não é preciso que se pareçam com a gente para que sejam capazes de pensar as mesmas coisas.


Mas, de acordo com a Lei de Moore (leia “CTO da Intel: Adeus eletrônica, vem aí a Spintrônica”), tão logo as máquinas se tornem inteligentes elas ultrapassaram a compreensão humana. A propósito, a sua Linha Tecnológica do Tempo de 2006 prevê que uma entidade de Inteligência Artificial irá ganhar um prêmio Nobel na década de 2020, e que na década seguinte os robôs serão mentalmente superiores aos humanos. O que virá depois disso, uma super-inteligência ou Deus 2.0?

Eu continuo acreditando nestas previsões de tempo para o advento da inteligência sobre-humana, mas não vou comentar sobre um Deus 2.0. Acredito que ainda devemos esperar por um computador consciente mais inteligente que nós por volta de 2020. Ainda não vejo razões porque isso não iria acontecer neste período de tempo. Mas não penso que iremos compreendê-los. Pela simples razão de que nós nem mesmo entendemos como funcionam algumas das principais funções da consciência.
Vou lhe dar um exemplo. No começo dos anos 1990 na Universidade de Sussex havia um experimento para gerar um programa que iria desenvolver circuitos para distinguir entre os diferentes tons num circuito telefônico, permitindo aos circuitos operarem em modos diferentes. Pois bem, os circuitos que o computador desenvolveu operaram de modo muito diferente daqueles criados pelos humanos. Quer dizer que o computador não empregou as convenções que as pessoas usam, mas apesar disso ele forneceu soluções que eram mais elegantes e que operavam de modo muito diverso.
Este exemplo mostra como até mesmo os mais simples dos sistemas nos fazem perder muito tempo para tentar compreender como eles funcionam. Eu não creio que iremos compreender estas máquinas inteligentes. Se você acha que elas serão capazes de se tornar mais inteligentes do que as pessoas, bem, eu concordo com a lógica de elas são mais espertas na hora de criar projetos mais inteligentes. Mas elas irão se tornar muito, muito inteligentes. É como um hamster tentando entender um ser humano. Eles simplesmente não podem entender o problema. Como então poderiam pensar do mesmo jeito? É como se comparar um ser humano a uma inteligência alienígena, que é centenas de milhões de vezes mais inteligente. Nós não possuímos a capacidade para começar a pensar do mesmo modo.
Quando pusemos máquinas ganhando prêmios Nobel na nossa linha tecnológica do tempo, tivemos boas razões para fazê-lo. Percebe? Ainda que muitos entre nós gostem de pensar que somos razoavelmente inteligentes, a maioria não é capaz de fazer algo tão genial para ganhar um prêmio Nobel, assim como não somos capazes de entender todos os ensaios ou conferências que um prêmio Nobel é capaz de escrever ou proferir, porque talvez estes caras operem num nível diferente do restante da humanidade. Com os computadores acontecerá o mesmo em algum momento num futuro não muito distante.

Neste contexto, podemos considerar que o Second Life seria uma forma de Matrix 1.0, ao passo que a Matrix do filme homônimo de 1999 será uma combinação do Second Life com a Inteligência Artificial?

Este é um jeito interessante de enxergar a questão! Eu nunca havia pensado nisto nesses termos. Mas no fundo eu realmente acho que não. Penso que, embora a Matrix e o Second Life tratem de socialização, o Second Life é um mundo imaginário onde podemos habitar, mas a diferença chave é que as pessoas têm plena consciência de estarem lá, enquanto que em Matrix a questão chave do filme não era que se tratava de um ambiente virtual onde as pessoas não sabiam que se encontravam. Não creio que o Second Life jamais evolua para um lugar onde a gente não seja consciente que está online. Sempre seremos capazes de distinguir entre estar conectado num mundo imaginário e quando se trata da vida real. Sempre seremos capazes de distinguir entre a vida real e a vida imaginária. Essa é a principal diferença entre Matrix e o Second Life. Mas certamente podemos adaptar o conceito do Second Life a partir de ambientes virtuais mais simples e adicionar a estes capacidades sensoriais, criando assim algo totalmente convincente. Sob este enfoque, uma futura versão poderia lembrar muito a Matrix, onde se tem um ambiente muito grande com pessoas interconectadas num nível muito convincente de realidade.

Isso está me parecendo o holodeck de Jornada nas Estrelas, não acha?

Isso! O holodeck em Jornada nas Estrelas tinha um pouco das propriedades futuras dos mundos virtuais. Em 2020, nós seremos capazes de induzir sensações, de exprimir sensações e de substituir sensações. Portanto, poderemos fazer algo que se aproxime do holodeck de Jornada nas Estrelas ou de O Vingador do Futuro (Total Recall, 1990). Será algo meio parecido com a Matrix, como um Second Life 10.0 ou algo do gênero.
O futuro está convergindo na direção de muitas destas coisas. No lugar do Second Life, uma metáfora que usamos com freqüência é o The Sims, o game com personagens imaginários que interagem entre si. Eles não são humanos, mas interagem assim mesmo. No futuro, com o advento da Inteligência Artificial, poderemos ter algo com as características do The Sims e consciência. Será uma situação muito interessante quando existir uma civilização imaginária, vivendo vidas imaginárias, sob um ponto de vista humano. Para os membros desta civilização ela será bastante real, e suas existências acontecerão no interior da rede, dentro do ciberespaço.

Você se interessa pela questão da convergência NBIC (nanociência, biotecnologia, tecnologia da informação e ciências cognitivas). Isso preocupa muita gente. Um exemplo é Bill Joy, o antigo CTO da Sun Microsystems, que em 2000 publicou um célebre manifesto na revista Wired, entitulado “Por que o futuro não precisa da gente”, onde alertava para o perigo que esta convergência representa para a Humanidade. Na sua linha tecnológica do tempo, eu li que nos anos 2030 um vírus criado pela nanotecnologia poderá ser transmitido entre máquinas e humanos através da internet. Isso não é o pior dos pesadelos tecnológicos?

Eu colocaria as coisas em outros termos. Em primeiro lugar, colocamos estas idéias na linha tecnológica do tempo para salientar as possibilidades da tecnologia futura. Mas acredito que, em certos casos, nós provavelmente iremos criar restrições para prevenir que alguém crie coisas como estas. A convergência NBIC permitirá que se crie coisas muito poderosas que trarão enormes benefícios para a Humanidade. Do mesmo modo, ela poderá permitir a criação de armas formidáveis que podem desaguar em cenários realmente horríveis.
O ponto que Bill Joy queria colocar em evidência no seu artigo é que tudo isso será plenamente possível. Daí que, em algum momento, nós teremos que descobrir como impedir que estas coisas aconteçam. Teremos que persuadir os governos ao redor do planeta para que percebam que existem problemas sérios que precisam ser regulados como forma de proteção.Pegue o exemplo da tecnologia de modificação genética, uma tecnologia cujos problemas potenciais já foram antecipados. Os governos devem fazer alguma coisa com relação a isso, devem estabelecer tratados a este respeito, embora sempre haja alguns poucos países que ficarão de fora. Por exemplo, na maior parte do mundo é ilegal clonar seres humanos e existem muitas restrições sobre o que se pode pesquisar em termos de modificação genética. Acredito que provavelmente o mesmo deverá acontecer com a convergência NBIC, proibindo aos cientistas o acesso a um nível tecnológico que os coloque perto de obter a capacidade de produzir coisas como os nano assemblers (máquinas moleculares capazes de produzir outras máquinas moleculares) para a produção de vírus e coisas do tipo. Será preciso criar restrições muito rígidas sobre a convergência NBIC para isso não ocorrer.

Mas como fazer isso?

O problema é que muitas destas tecnologias serão quase impossíveis de policiar. Mesmo que elas se tornem ilegais em todo o mundo através de tratados internacionais, como será possível controlar o que alguém está fazendo no fundo do quintal, alguém muito inteligente e com pouco equipamento? Não se pode detectar este tipo de coisa através do uso de vigilância via satélite. Sob esta ótica, eu acho que não poderemos fazer nada a respeito, seremos obrigados a aceitar o risco. Mas isso não é novidade! Uma vez que a tecnologia existe ou mesmo no caso dela estar a meio caminho de ser criada, é óbvio que só será necessário alguns caras espertos trabalhando num pequeno laboratório. Em pouco tempo eles irão sair de lá com alguma coisa. Como poderemos impedir?
O conceito de convergência NBIC prevê a criação de alguma forma viral extrema de Inteligência Artificial, assim como máquinas conscientes, super-homens, nano assemblers, modificação genética, etc... Precisamos decidir como regular estas tecnologias, apesar de termos capacidade limitada para tanto. Eu concordo com Bill Joy até certo ponto. Não sou otimista de achar que iremos achar uma solução. No momento, não existe nenhuma. Joy tem o mérito de ter levantado uma questão muito importante!

O físico inglês Stephen Hawking defendeu em 2001 (na revista alemã Focus) a modificação genética da nossa espécie como forma de manter o passo com as máquinas inteligentes. Você acredita que o melhoramento genético do ser humano é possível?

Estamos desenvolvendo uma boa compreensão de como um ser humano é construído e como ele funciona tão somente a partir de um exército de proteínas e coisas parecidas. Do mesmo modo, nós estamos identificando como operam os processos que envolvem a vida. Acredito que este progresso irá se acelerar ao longo da próxima década. Portanto é muito provável que possamos desenvolver a capacidade de modificar o ser humano sob diversas formas. Mas, novamente, temos que ter meios para policiar este processo. Ao mesmo tempo, deveríamos ter a possibilidade de realizar quaisquer modificações no ser humano que possamos desejar. Por exemplo, as pessoas irão procurar por modificações genéticas para acrescentar genes que realizam tarefas úteis, assim como se livrar de outros que não o façam. Não conheço a resposta para esta questão, e a maioria dos cientistas também não sabe.
Nós seremos capazes de extrair genes de outros organismos, e modificá-los ao fundi-los uns com os outros. Eventualmente, quando realmente compreendermos os princípios básicos através dos quais os genes operam, e quando reunirmos outros vislumbres do que a natureza levou bilhões de anos para produzir, poderemos ir muito mais longe.
Quando isso acontecer, seremos capazes de projetar genes a partir do zero para alcançar os objetivos a que nos propusermos. Seremos capazes de decidir quais características queremos criar ou até mesmo determinar qual personalidade se deseja possuir, e daí produzir todas as proteínas e sistemas para realizá-lo.
Acredito que seremos capazes de fazer tudo isso, modificar pessoas e muito possivelmente acabar expandindo certo número de habilidades humanas. A questão é: quão longe devemos ir até decidir que queremos inserir melhorias genéticas nas pessoas que desejam obtê-las, como por exemplo, uma conexão direta com as máquinas? Será que iremos querer nos conectar na rede? Deveríamos produzir genética que permita às pessoas, em 2050 ou 2060, se conectar diretamente na internet através do pensamento, permitindo a elas se comunicar com outras pessoas através de telepatia? Por que não seguir este caminho no caso da tecnologia existir e a engenharia permiti-lo? As possibilidades são muito interessantes.

Neste exato momento, o Pentágono está empregando mais de cinco mil robôs no Iraque e no Afeganistão, patrulhando cidades, desarmando explosivos ou realizando vôos de reconhecimento. O próximo passo é fazê-los portar armas. O final dessa história desemboca no Exterminador do Futuro?

Risos) Esta é com certeza uma das principais preocupações com que os engenheiros vêm se preocupando: se esta tecnologia leva na direção de O Exterminador do Futuro como mostra o filme de 1984, quando se projeta um robô que deveria responder ao nosso comando, mas que no momento em que se torna consciente decide não mais nos obedecer.
Quando os Estados Unidos desenvolvem armas robóticas eles estão dando um passo nessa direção. A questão é quão longe se pode seguir por esse caminho sem contar com uma enorme assistência tecnológica. Por exemplo, um ditadorzinho de algum regime poderia permitir que seus cientistas trilhassem esta direção para desenvolver algum sistema bélico? Hoje, provavelmente não, porque ele não teria acesso a tecnologias que ainda não foram desenvolvidas.
Estas tecnologias irão requerer uma enorme quantidade de recursos. Mas este potencial existe. Como sabemos que a possibilidade existe, é óbvio que alguém irá pensar em projetar estas máquinas, e não irá deter-se meramente pelo temor de que em algum momento sua pesquisa possa desembocar num cenário como o do Exterminador do Futuro. Nós certamente teremos que nos auto-policiar para não sermos estúpidos o suficiente para destruir o mundo.

Você é otimista com relação ao futuro? Acredita que poderemos expandir nossa civilização tecnológica ao mesmo tempo em que salvamos o mundo da fome, da superpopulação, da poluição e da destruição ambiental?

Eu sou um otimista. Reconheço que existem perigos no futuro. Mas de alguma forma eu ainda acredito que iremos conseguir evitar estes problemas e que o futuro será muito melhor do que o presente. Se olharmos muito além no futuro, iremos resolver muitos destes problemas usando máquinas avançadas. De uma forma ou de outra, conseguiremos encontrar um meio para evitar a destruição do mundo. É nisso que acredito. Se eu olhar para o lado negativo, existe um risco, um risco significativo de que nós possamos destruir o mundo através de meios impossíveis de imaginar. Eu acredito que nas próximas décadas haverá um equilíbrio entre os problemas causados pela tecnologia e as soluções por ela criadas. Mas penso que no curto e no médio prazo o mundo provavelmente não será melhor ou pior do que é hoje. No longo prazo, no entanto, existem muitas razões para ser otimista. Nós poderemos solucionar muitos dos problemas que causamos ao planeta, assim como provavelmente saberemos lidar com os problemas a serem criados por tecnologias que ainda estão por vir. Portanto, no que diz respeito ao futuro, eu sou um otimista. Mesmo porque a alternativa contrária é horrível demais para ser pensada.

sexta-feira, 5 de outubro de 2007

O "Filme" da pós-modernidade

Reproduzi abaixo, apenas a título de ilustração, 3 pequenas notícias, quase tiradas a esmo, publicadas entre ontem e hoje. Nos moldes do que ocorre no cinema – onde a seqüência de imagens permite ao espectador conferir um sentido coerente – a “montagem” abaixo estabelece um quadro que suscita uma reflexão acerca da pós-modernidade.

A quarta notícia permitiria uma esperança, porém uma reflexão mais atenta se faz necessária, pois demonstra, na verdade, que a luta, o antagonismo em uma sociedade alienada já se dá em um terreno previamente demarcado; na "sociedade do espetáculo", todos brigam por um pedaço do palco, não questionando o próprio teatro (em ambos os sentidos).

A solução ?

Não há soluções “prontas”, mas acredito e sinto que uma pista se encontra na postagem mais abaixo (vide “O Gosto da Liberdade”)

04/10/2007
09h49
Senado francês aprova teste de DNA para imigrantes

O senado francês aprovou, na noite desta quarta-feira, um polêmico projeto de lei que prevê o uso de testes de DNA em imigrantes que querem entrar na França alegando ter parentes morando no país.A proposta do governo, que já foi aprovada pelos deputados no mês passado, prevê que pessoas com mais de 16 anos que desejam emigrar para a França, façam testes de DNA em seu país de origem. Segundo as novas regras, o candidato deverá demonstrar conhecimentos da língua francesa e dos "valores" da República, além de comprovantes de renda e de documentos que atestem que a família tem condições de recebê-lo.O projeto do governo do presidente Nicolas Sarkozy teve de ser alterado na última hora para conseguir a aprovação dos senadores.Uma das mudanças prevê que o governo francês vai arcar com o custos dos testes, uma forma de evitar acusações de discriminação contra os requerentes que não têm dinheiro para pagar o exame. A outra alteração prevê que serão testados apenas o DNA materno para evitar possíveis disputas por testes de paternidade. O governo francês planeja aplicar os exames de maneira experimental durante de 18 meses.O projeto tem sido alvo de críticas da oposição e de grupos de direitos humanos, que acusam o governo de racismo e questionam o uso da genética nas regras de imigração.O governo acredita que os testes vão acelerar a entrada de imigrantes que provarem relações de parentesco e argumentam que outros 12 países europeus já adotaram medidas semelhantes. O projeto agora volta para a Câmara dos Deputados antes de virar lei.

05/10/2007
05h55
Tribunal dos EUA multa mulher por pirataria na internet

A indústria fonográfica americana ganhou nesta quinta-feira uma de suas maiores batalhas na luta contra a pirataria de músicas pela internet.Um tribunal do estado de Minnesota decidiu que Jammie Thomas, uma mãe solteira de 32 anos, deverá pagar uma multa de US$ 220 mil (R$ 400 mil) por ter baixado e compartilhado ilegalmente 24 músicas usando a rede de computadores. As seis gravadoras que estão processando Thomas cobraram US$ 9,250 (R$ 17 mil) por cada música pirateada, mas a multa poderia ter chegado a milhões de dólares, pois segundo as empreas ela teria compartilhado até 1.700 músicas pela internet. O advogado de Thomas, Brian Toder, disse que a mulher chorou ao ouvir o veredicto e que ela poderá ter um quarto de seu salário comprometido para o resto de sua vida. O advogado das gravadoras, Richard Gabriel, disse que o veredicto foi importante porque "alerta as pessoas para as conseqüências de se infringir a lei". Para o Los Angeles Times, a vitória é um passo importante na campanha lançada há quatro anos pela indústria fonográfica contra pirataria.Até agora, a Associação Americana da Indústria fonográfica (RIAA, na sigla em inglês) já entrou com 26 mil processos contra indivíduos acusados de compartilhar músicas pela rede, mas esta é a primeira vez que uma disputa vai parar no tribunal. Mais de 10 mil processos já foram resolvidos, depois que os acusados concordaram em pagar até US$ 5 mil (R$ 9 mil) por infringir as leis de direitos autorais.

5/10/2007
A exclusão é a regra da cibercultura e não a inclusão, afirma especialista

"O mercado exige dromoaptidão, ou seja, a capacidade de ser veloz. O mercado está cada vez mais dromocrático. Essa exigência cumpre a função de seleção. Mas é uma violência, porque sobrepesa aos conhecimentos que já eram exigidos. E é pantópica, vem de todos os lados." A afirmação é de Eugenio Trivinho, autor do livro "A Dromocracia Cibercultural" recém-lançado pela Editora Paulus. O autor foi entrevistado por Jorge Felix e a entrevista foi publicada pelo jornal Valor, 4-10-2007.

Eis a entrevista.

Ainda é possível viver fora da lógica da velocidade?
Não, desde que se considere que o indivíduo necessita, para integrar-se ao mercado de trabalho, estar em sintonia com a época. Pela sua sobrevivência e para integrar-se também aos produtos de lazer, os games. A época exige um domínio das chamadas senhas infotécnicas de acesso. Deixa para aqueles que não entraram, não têm necessidade de entrar ou saíram do mercado de trabalho a prerrogativa de rescisão a esse domínio dos instrumentos, das linguagens ou dos conhecimentos. No entanto, há muito pouca brecha para escape. A tecnocracia é a mais penalizada. Os executivos certamente não desfrutam do privilégio concedido pela época de não precisar responder a todas as exigências dromo- cráticas. Apenas o tecnófobo pode dizer "não".

Quais são as conseqüências desse fenômeno para a qualificação profissional?
A primeira é a inexorabilidade da sobrecarga civilizatória. O indivíduo deve dominar essas infotécnicas, mesmo para funções nas quais esse conhecimento sequer é um requisito. Isso faz parte da incorporação da violência típica desta época. O mercado exige dromoaptidão, ou seja, a capacidade de ser veloz. O mercado está cada vez mais dromocrático. Essa exigência cumpre a função de seleção. Mas é uma violência, porque sobrepesa aos conhecimentos que já eram exigidos. E é pantópica, vem de todos os lados.

É nesse aspecto que a dromocracia revela-se típica de uma época violenta?
A cibercultura não é apenas uma época. É um processo civilizatório e busca sua perpetuação no tempo. É a fase atual do capitalismo tardio. Há um sobrepeso aos ombros de todos, embora a época estipule quem domina as novas senhas e quem não deve dominá-las, porque a seleção é econômica ou cognitiva. Esse sobrepeso se faz com requintes. Ela aponta para o horizonte sem definir o rumo. Existe uma cobrança para o domínio do ciberespaço, mas é doce, sutil, uma pressão social invisível. Diz: "Você deve dominar essas senhas, que prometem 'garantir' sua inclusão na cibercultura".

Essa promessa é de fato cumprida?
É apenas um discurso. Vive do caudal publicitário das megaindústrias do ramo. Mas desse processo fazem parte governo, terceiro setor, provedores de acesso e também a massa de consumidores que aderem sem reflexão aos produtos. A lógica da cibercultura vive dessa dinâmica da reciclagem info-tecnológica estrutural. Não basta dominar uma senha. É necessário que esta senha esteja sempre atualizada. Mas, para esse acompanhamento há a necessidade de formação de capitais econômico e cognitivo.
E a mudança é cada vez mais rápida.
O coração desse movimento é a reciclagem estrutural, a passagem de uma "mais potência" para outra. Do hardware 486 para o Pentium 1, por exemplo. Ou seja, não basta qualquer senha. O tempo de reciclagem hoje é de seis meses para todos os componentes. Nunca tivemos taxa de reciclagem tão alta para outras modalidades de objetos tecnológicos, como carro e televisão.

Os indivíduos, empresas ou governos conseguem acompanhar?
Esta é a síntese da lógica da reciclagem: a violência. Invisível. As indústrias do ramo têm necessidade de fazer girar o capital. O capitalismo cibernético tem necessidade de reprodução. Todos, governos, empresas, nações, todos devem se vergar à lógica da mais potência. É um ódio valorativo ao que estava vigorando antes, como se o 4.0 fosse melhor que o 3.0, como se o Windows 98 fosse melhor que o 95. Isso é uma falácia. A lógica nos convence que status é ter acesso a senhas atualizadas.
E, como mudam rápido, cada vez criam mais excluídos.
A equação da época, com seus requintes sutis, diz: é necessário desenvolver um domínio privado, a partir do dromo, com computador em casa, pleno, com todas as senhas info-técnicas atualizadas, e capital cognitivo para ter lugar ao sol da cibercultura. Aí começa o drama do nosso processo civilizatório. Esse domínio não é dado a todos. Abre-se, portanto, o fosso que separa uma elite, a nova, elite tecnológica, e aquela massa dromoinapta que não o é porque quer, é porque o processo é darwinista. Aí ocorre uma super exclusão. A exclusão é a regra da cibercultura e não a inclusão.

É um desafio para a política de inclusão digital?
Pensar na inclusão digital, como forma de inclusão social, é utopia. A inclusão digital só pode assim ser pensada como meta a ser cumprida no âmbito civilizatório. Sistema escolar, governos, fundações, ONGs podem trabalhar para saldar uma dívida. A escala é civilizatória. Não é localizada nem reduzida a uma época. A civilização tenta se desdobrar porque as necessidades comparecem e a sociedade tem que dar conta. Nós sabemos que o Estado, o capital, o terceiro setor, ao falarem de acesso universal, fazem apenas um discurso. A época exige acesso privado pleno. O discurso deixa entender que o acesso universal já inclui socialmente. Essa filigrana é que precisamos notar. Sem isso, caímos numa ingenuidade política de que apenas a popularização dos equipamentos vai flexibilizar o acesso. É bom lembrar que o barateamento ocorre para os equipamentos defasados, quando a mais potência já se deslocou para categorias que têm capacidade econômica e cognitiva para acompanhar a reciclagem estrutural. É essa diferenciação interna da dromocracia cibercultural que marca a complexidade da exclusão.

31/8/2007
O garoto do iPhone

George Hotz, um garoto de 17 anos morador de Nova Jersey conseguiu, com a ajuda de 4 amigos, desbloquear o seu iPhone. Ganhou as manchetes de todo mundo. A façanha de George Hotz – nova geração de “entusiastas da abertura, da liberdade e da divisão do conhecimento” - é comentada pelo economista Ricardo Cianciaruso em seu blog, “É Nóis” – portal do sítio Época negócios, 29-08-2007.

Eis o comentário.

Vale explicar que a Apple fechou um acordo de exclusividade com a operadora de telefonia AT&T. Só os clientes da AT&T poderiam falar no iPhone. Mas o plano de celular do garoto era da T-Mobile. E aí ele foi à luta. Precisou de mais de 500 horas de trabalho para fazer o seu iPhone funcionar na T-Mobile. Seu blog oferece um guia, passo a passo, de como fazer o mesmo (olhar na coluna da direita).

Além de ser mais uma prova do poder do consumidor na Era Digital, razão de existir desse blog, o episódio me diz que acordos como os da Apple com a AT&T estão com os dias contados. Para mim esse tipo de acordo é um jeito antigo de fazer negócios. É antipático. Pode até ser um bom negócio para Apple no curto prazo, mas acho que não tem vida longa. Mais cedo ou mais tarde garotos como o George Hotz descobrem uma saída que rapidamente se espalha no boca a boca digital.

Mas o maior prejuízo nesse caso é para a imagem da Apple. Uma empresa moderna, antenada e inovadora não deveria obrigar as pessoas a abrir uma conta na At&T para usar seu iPhone. Minha opinião. Isso mostra uma faceta antiquada da empresa. Não combina com o Zeitgeist dessa nova geração, que você vê nas propagandas da Apple usando seus iPods.

Como já escrevi, em referência a uma coluna do El Pais, “essa geração não compactua com o individualismo típico dos anos 90. Essa turma das comunidades virtuais, da Wikipedia e dos blogs tende a ser mais solidária, mais participativa e mais ativa que a geração passada. Nutrem a convicção, e a ilusão, de que ao agir dessa maneira podem ajudar a construir um mundo melhor. São entusiastas da abertura, da liberdade e da divisão do conhecimento”. Essa é a geração de garotos como o George Hotz.

O Gosto da Liberdade

Ofereço aos leitores um precioso presente: trata-se de um fragmento da obra "O Gosto da Liberdade", do Mestre Ajaan Chah, extraído do site http://www.acessoaoinsight.net/ e cujo conteúdo completo pode também ser acessado naquele site.

Achei conveniente também transcrever a seguinte nota do tradutor:

"As palestras traduzidas neste livro foram todas extraídas de antigas gravações em fitas K-7 do Venerável Ajaan Chah, algumas em Tailandês e algumas no dialeto do Nordeste da Tailândia, a maioria delas gravadas com equipamento de má qualidade sob condições pouco adequadas. Devido a isso o trabalho de tradução apresentou algumas dificuldades que foram superadas omitindo ocasionalmente passagens que não estavam claras e em outras ocasiões solicitando o auxílio de outros ouvintes mais familiarizados com os idiomas. Todavia, houve inevitavelmente alguma edição durante o processo de elaboração deste livro. Além das dificuldades apresentadas pela falta de claridade das fitas, existe também a necessidade de um processo de edição quando se passa do meio verbal para o meio escrito. Por esse processo, o tradutor assume inteira responsabilidade.

As palavras em Pali foram em certos casos mantidas enquanto que em outros casos foram traduzidas. O critério foi a facilidade da leitura. Aquelas palavras em Pali consideradas suficientemente curtas ou familiares aos leitores versados na terminologia Budista, foram deixadas sem tradução. Isso não deve representar nenhuma dificuldade pois elas em geral são explicadas pelo Venerável Ajaan no transcurso da palestra. Palavras mais longas ou que provavelmente não são do conhecimento do leitor típico foram traduzidas. Dessas, existem duas que são dignas de nota. Elas são Kamasukhallikanuyogo e Attakilamathanuyogo, que foram traduzidas respectivamente como Entregar-se ao Prazer e Entregar-se à Dor. Essas duas palavras ocorrem em nada menos que cinco das palestras incluídas neste livro e embora as traduções aqui utilizadas não são aquelas que em geral se empregam, elas refletem adequadamente o sentido que o Venerável Ajaan lhes aplica.

O Venerável Ajaan Chah sempre proferia as suas palestras em linguagem simples, do cotidiano. O seu objetivo era de esclarecer o Dhamma, não de confundir os ouvintes com uma dose excessiva de informações. Por conseguinte as palestras aqui apresentadas foram passadas de forma simples para o inglês. O objetivo foi o de apresentar os ensinamentos de Ajaan Chah tanto na sua essência como na sua forma.

Nesta terceira edição do O Gosto da Liberdade, foram feitas correções a algumas passagens que estavam compostas de forma desajeitada, esperando assim que existam menos dessas ocorrências do que nas primeiras edições. Por essas imperfeições o tradutor assume responsabilidade e espera que o leitor tenha paciência com as eventuais deficiências literárias de forma a receber o benefício completo dos ensinamentos aqui contidos.
"

Sobre o Autor

O Venerável Ajaan Chah (Pra Bhodinyana Thera) nasceu em uma típica família camponesa no vilarejo de Bahn Gor, na província de Ubol Rachathani, na região Nordeste da Tailândia em 1917. Ele viveu a primeira parte da sua vida como qualquer outra criança da região rural na Tailândia e, de acordo com o hábito local, ele se ordenou como noviço durante alguns anos no Wat do vilarejo, lá ele aprendeu a ler e escrever, além de receber alguns ensinamentos básicos sobre o Budismo. Após alguns anos ele retornou para a vida leiga para ajudar os seus pais, mas sentindo uma grande atração pela vida monástica, com vinte anos ele novamente entrou em um Wat, desta vez para uma ordenação mais elevada como bhikkhu, ou monge Budista.

Ele passou os primeiros anos da sua vida como bhikkhu estudando as escrituras e aprendendo o Pali, mas a morte do pai o despertou para a impermanência da vida e incutiu nele o desejo de encontrar a real essência dos ensinamentos do Buda. Ele passou a viajar para outros monastérios, estudando a disciplina monástica em detalhe e passando um breve, porém importante período com o Venerável Ajaan Mun, o Mestre de meditação mais destacado da tradição ascética de florestas. Após o seu período com o Venerável Ajaan Mun, ele passou alguns anos viajando pela Tailândia, vivendo nas florestas e em cemitérios, lugares ideais para o desenvolvimento da prática meditativa.

Finalmente, ele acabou chegando na vizinhança do vilarejo onde havia nascido e quando souberam que ele se encontrava na região, o convidaram para estabelecer um monastério na floresta de Pa Pong, um lugar que naquela época era conhecido como a moradia de animais selvagens e fantasmas. A perfeita abordagem de meditação do Venerável Ajaan Chah, ou prática do Dhamma, e o seu estilo simples e direto de ensino, com ênfase na aplicação prática e uma atitude equilibrada, atraiu uma grande quantidade de seguidores monásticos e leigos.

Em 1966, o primeiro ocidental veio para ficar no Wat Pa Pong, o Venerável Sumedho Bhikkhu. Daquele momento em diante, o número de estrangeiros que buscaram Ajaan Chah foi crescendo continuamente, até que em 1975, foi estabelecido Wat Pa Nanachat, o primeiro monastério afiliado para pessoas do ocidente e de outras nacionalidades que não a Tailandesa, tendo o Venerável Ajaan Sumedho como abade.

Em 1976 o Venerável Ajaan Chah juntamente com Ajaan Sumedho foram convidados para ir à Inglaterra e como resultado, acabou sendo estabelecido o primeiro monastério afiliado ao Wat Pa Pong fora da Tailândia. Desde então outros monastérios afiliados foram estabelecidos na Inglaterra, Suíça, Austrália, Nova Zelândia e Itália.

Em 1980 o Venerável Ajaan Chah começou a sentir de maneira mais aguda os sintomas de vertigem e lapsos de memória que ele vinha sentindo ao longo de alguns anos. Isso acarretou uma cirurgia em 1981 que, no entanto, fracassou no seu objetivo de reverter o processo de paralisia, que, afinal, fez com que ele ficasse confinado à cama e impossibilitado de falar. No entanto, isso não inibiu o crescimento do número de monges e pessoas leigas que vinham para praticar no seu monastério, para eles os ensinamentos de Ajaan Chah serviam como guia e inspiração permanentes.

O Gosto da Liberdade

Por: Ajaan Chah

Sobre Meditação

Acalmar a mente significa encontrar o equilíbrio correto. Se você tentar forçar a sua mente em demasia ela irá longe demais, se você não se esforçar o suficiente ela não irá chegar lá, ela perde o ponto de equilíbrio.

Normalmente a mente não está tranqüila, ela está se movendo o tempo todo, lhe falta força. Fortalecer a mente e fortalecer o corpo não é a mesma coisa. Para fortalecer o corpo necessitamos exercitá-lo mas para fortalecer a mente significa fazer com que ela fique em paz, que não fique pensando acerca disto ou daquilo. Para a maioria das pessoas a mente nunca esteve em paz, ela nunca teve a energia de samadhi, [1 ] por isso, devemos colocá-la dentro de limites. Sentamos em meditação, permanecendo com Aquele que sabe.

Se forçamos a nossa respiração para que seja muito longa ou muito curta, não estaremos em equilíbrio, a mente não ficará em paz. É o mesmo quando usamos uma máquina de costura com pedal pela primeira vez. Inicialmente praticamos somente com o pedal, de forma a ajustar nossa coordenação, antes que costuremos alguma coisa. Acompanhar a respiração é parecido. Nós não nos preocupamos se ela é longa ou curta, fraca ou forte, nós somente a observamos. Deixamos que seja como deve ser e acompanhamos a respiração natural.

Quando ela estiver equilibrada, tomamos a respiração como nosso objeto de meditação. Quando inspiramos, o começo da respiração está na ponta do nariz, o meio da respiração está no peito e o final da respiração está no abdômen. Esse é o caminho da respiração. Quando expiramos, o início da respiração está no abdômen, o meio no peito e o final na ponta do nariz. Simplesmente observamos o caminho da respiração na ponta do nariz, no peito e no abdômen e depois no abdômen, no peito e na ponta do nariz. Notamos esses três pontos de forma a fazer com que a mente fique estável, para conter a atividade mental de tal forma que a atenção plena e a autoconsciência possam surgir com facilidade.

Quando formos capazes de notar esses três pontos poderemos soltá-los e notar a inspiração e a expiração, concentrando exclusivamente na ponta do nariz ou no lábio superior, onde o ar toca quando entra e sai. Nós não precisamos seguir a respiração, simplesmente estabelecemos a atenção plena à nossa frente, na ponta do nariz e notamos a respiração nesse único ponto - entrando, saindo, entrando, saindo. Não há necessidade de pensar acerca de algo especial, agora, concentre-se nessa simples tarefa, mantendo continuamente a mente atenta. Não há nada mais a ser feito, somente inspirar e expirar.

Em pouco tempo a mente ficará tranqüila, a respiração mais sutil. A mente e o corpo se tornam leves. Esse é o estado correto para a tarefa da meditação.

Quando estamos sentados em meditação a mente se torna refinada, mas em qualquer estado em que ela se encontre devemos tentar ter consciência dele, conhecê-lo. A atividade mental está ali junto com a tranqüilidade. Existe vitakka. Vitakka é a ação de trazer a mente para o tema da contemplação. Se não existe muita atenção plena, não haverá muito vitakka. Então vicara, a contemplação em torno daquele tema, segue. Várias impressões mentais "mais fracas" podem surgir de tempos em tempos mas a nossa autoconsciência é o mais importante - não importa o que esteja acontecendo nós temos conhecimento dela continuamente. À medida que nos aprofundamos estamos constantemente conscientes do estado em que se encontra a nossa meditação, sabendo se a mente está ou não firmemente estabelecida. Dessa forma, ambos, a concentração e a atenção plena estarão presentes.

Ter uma mente tranqüila não quer dizer que nada está acontecendo, as impressões mentais continuam surgindo. Por exemplo, quando falamos sobre o primeiro nível de absorção, dizemos que ele possui cinco fatores. Juntamente com vitakka e vicara, piti (êxtase) surge com o tema da contemplação e depois sukha (felicidade). Essas quatro coisas estão todas juntas na mente que se firmou na tranqüilidade. Elas são como um estado único.

O quinto fator é ekaggata ou unificação da mente em um só ponto. Você deve estar perguntando a si mesmo como pode haver a unificação quando também existem esses outros fatores. Isso ocorre porque eles ficam todos unificados com base na tranqüilidade. Juntos eles são chamados de o estado de samadhi. Eles não são estados do cotidiano da mente, eles são fatores de absorção. Existem essas cinco características mas elas não perturbam a tranqüilidade básica. Existe vitakka, mas ela não perturba a mente; vicara, êxtase e felicidade surgem mas não perturbam a mente. Portanto, a mente e esses fatores estão como se fossem uma coisa só. Assim é o primeiro nível de absorção.

Nós não precisamos chamá-lo de Primeiro Jhana, Terceiro Jhana e assim por diante, vamos chamá-lo simplesmente de ”uma mente tranqüila". Conforme a mente vai progressivamente se acalmando, ela irá dispensar vitakka e vicara, restando somente êxtase e felicidade. Porque a mente descarta vitakka e vicara? A razão é porque a mente vai se tornando mais refinada e a atividade de vitakka e vicara é muito grosseira para que possa permanecer. Neste estágio, quando a mente abandona vitakka e vicara, sentimentos de intenso êxtase podem surgir, lágrimas podem aflorar. Mas conforme o samadhi se aprofunda, o êxtase também é descartado, ficando somente a felicidade e a unificação da mente em um só ponto até que finalmente, mesmo a felicidade se vai e a mente atinge o ponto mais elevado de refinamento. Existe apenas equanimidade e unificação da mente em um só ponto, todo o demais foi deixado para trás. A mente permanece imóvel.

Uma vez que a mente esteja tranqüila tudo isso pode acontecer. Você não precisa pensar muito a respeito disso, isso acontece por si mesmo. A isto se chama de a energia de uma mente tranqüila. Nesse estado, a mente não está sonolenta; os cinco obstáculos, desejo sensual, aversão, inquietação, torpor e dúvida, foram todos embora.

Mas se a energia mental não for forte o suficiente e a atenção plena for fraca, ocasionalmente surgirão impressões mentais intrusas. A mente está tranqüila mas é como se houvesse uma "névoa" dentro dessa tranqüilidade. Não é um tipo de sonolência comum no entanto, algumas impressões irão se manifestar - talvez ouçamos um som ou vejamos um cachorro ou outra coisa. Não está absolutamente claro mas também não é um sonho. Isto ocorre porque os cinco fatores se tornaram desequilibrados e fracos.

A mente tem a tendência de nos pregar peças nesses níveis de tranqüilidade. "Imagens" podem surgir certas vezes quando a mente está nesse estado, através de qualquer um dos sentidos e o meditador poderá não ser capaz de identificar o que exatamente está acontecendo. "Estou dormindo? Não. É um sonho? Não, não é um sonho…" Essas impressões surgem a partir de um tipo de tranqüilidade média; mas se a mente estiver verdadeiramente tranqüila e cristalina não teremos dúvidas acerca das várias impressões mentais ou imagens que surgirem. Questões como, "Eu fiquei à deriva? Eu estava dormindo? Eu me perdi? " não surgem pois elas são a característica de uma mente que ainda duvida. "Estou dormindo ou acordado?"…Aqui está confuso! Essa é a mente que está ficando perdida nos seus humores. É como a lua se escondendo atrás de uma nuvem. Você ainda pode ver a lua mas as nuvens que a cobrem fazem com que ela não possa ser vista com clareza. Não é como a lua que surgiu por detrás das nuvens - clara, bem definida e brilhante.

Quando a mente está tranqüila e com a atenção plena firmemente estabelecida, não haverá dúvida em relação aos vários fenômenos que encontramos. A mente terá verdadeiramente superado os obstáculos. Conheceremos com clareza, como na verdade é, tudo aquilo que surgir na mente. Não teremos dúvida porque a mente está clara e luminosa. A mente que alcança o samadhi é assim.

No entanto, algumas pessoas têm dificuldade de entrar em samadhi porque este não convém às suas inclinações. O samadhi existe mas não é forte ou firme. Mas a pessoa pode alcançar a paz através da sabedoria, contemplando e vendo a verdade das coisas, solucionando os problemas por esse caminho. Isto é a utilização da sabedoria ao invés do poder de samadhi. Para alcançar a tranqüilidade na prática, não é necessário sentar em meditação. Somente pergunte a si mesmo, "Ei, o que é isso?…" e solucione o seu problema exatamente nesse momento! Assim é uma pessoa sábia. Talvez ela realmente não consiga atingir níveis elevados de samadhi, embora ela desenvolva algo, o suficiente para cultivar a sabedoria. É a diferença entre cultivar arroz e cultivar milho. A pessoa pode depender mais de arroz do que milho para o seu sustento. A nossa prática pode ser assim, dependemos mais da sabedoria para solucionar os problemas. Quando vemos a verdade, a paz surge.

As duas formas não são iguais. Algumas pessoas possuem insight e sólida sabedoria mas não possuem muito samadhi. Quando elas sentam para meditar elas não ficam muito tranquilas. Elas tendem a pensar muito, contemplando isso ou aquilo até que finalmente elas contemplam a felicidade e o sofrimento e enxergam neles a verdade. Algumas se inclinam mais para isso do que samadhi. Quer seja em pé, caminhando, sentado ou deitado, [3] a iluminação do Dhamma poderá ocorrer. Vendo e abandonando, elas alcançam a paz. Elas alcançam a paz conhecendo a verdade sem ter qualquer dúvida, porque elas a viram por si mesmas.

Outras pessoas possuem somente pouca sabedoria mas o seu samadhi é bastante sólido. Elas podem entrar em profundo samadhi rapidamente, mas não tendo muita sabedoria, elas não conseguem agarrar as suas impurezas, elas não as conhecem. Elas não conseguem resolver os seus problemas.

Mas independentemente da abordagem que usemos, precisamos eliminar a maneira incorreta de pensar, deixando ficar somente o Entendimento Correto. Precisamos eliminar a confusão, deixando somente a paz. De ambas maneiras chegaremos ao mesmo lugar. Existem esses dois aspectos da prática, mas essas duas coisas, tranqüilidade e insight, caminham juntas. Não podemos eliminar nenhuma delas. Elas precisam ir juntas.

Aquilo que "inspeciona" os vários fatores que surgem na meditação é 'sati', atenção plena. Sati é uma condição que, através da prática, pode auxiliar outros fatores a surgirem. Sati é vida. Sempre que não tivermos sati, quando formos desatentos, é como se estivéssemos mortos. Se não temos sati, então o que falamos e fazemos não possui nenhum significado. Sati é simplesmente recordação. É a causa do surgimento da autoconsciência e sabedoria. Quaisquer virtudes que tenhamos cultivado serão imperfeitas se lhes faltar sati. Sati é o que nos observa quando estamos em pé, caminhando, sentados e deitados. Mesmo quando não estamos mais em samadhi, sati deveria estar sempre presente.

Tomamos cuidado com qualquer coisa que façamos. Uma sensação de vergonha [4] irá surgir. Ficaremos envergonhados das coisas que fazemos e que não são corretas. Conforme a vergonha aumenta, o nosso auto controle também aumenta, quando o nosso autocontrole aumenta a desatenção irá desaparecer. Mesmo que não sentemos em meditação, esses fatores estarão presentes na mente.

E isto surge devido ao fato de cultivarmos sati. Desenvolva sati! Esse é o dhamma que inspeciona o trabalho que estamos fazendo ou que fizemos no passado. Ele tem utilidade. Devemos nos conhecer o tempo todo. Se nos conhecermos dessa forma, o certo irá se distinguir do errado, o caminho irá se tornar claro e o motivo para toda a vergonha irá se dissolver. A sabedoria irá surgir.

Podemos resumir toda a prática em virtude, concentração e sabedoria. Ter autocontrole, isso é virtude. O firme estabelecimento da mente dentro desse controle é concentração. Para completar, o conhecimento amplo dentro da atividade na qual estamos engajados é sabedoria. A prática, em resumo, é apenas virtude, concentração e sabedoria ou em outras palavras, o caminho. Não existe outra alternativa.


"...Com o samadhi correto, não importa qual nível de tranqüilidade é alcançado, existe a consciência. Existe atenção plena e clara compreensão. Esse é o samadhi que pode dar origem à sabedoria, a pessoa não será capaz de se perder nele. Os praticantes devem entender isto muito bem..."

O Caminho em Harmonia

Hoje eu gostaria de lhes perguntar. "Vocês estão seguros, vocês têm certeza da sua prática de meditação?" Eu pergunto porque atualmente existem muitas pessoas ensinando meditação, tanto monges como leigos e eu temo que vocês possam estar sujeitos à incerteza e a dúvida. Se entendermos claramente, seremos capazes de fazer com que a mente seja firme e tranqüila.
Vocês devem entender o "Caminho Óctuplo" como sendo virtude, concentração e sabedoria. O caminho é simplesmente isso. A nossa prática consiste em fazer com que esse caminho se desenvolva dentro de nós.

Quando sentamos em meditação nos dizem para fechar os olhos, não olhar para nada mais porque agora iremos olhar diretamente para a mente. Quando fechamos os nossos olhos, a nossa atenção se volta para dentro. Estabelecemos nossa atenção na respiração, centralizamos ali as nossas sensações, colocamos ali a nossa atenção plena. Quando os elementos do caminho estiverem em harmonia seremos capazes de ver a respiração, as sensações, a mente e os seus humores da forma como realmente são. Aqui veremos o "ponto de foco", para onde samadhi e os demais elementos do Caminho convergem em harmonia.

Quando estiverem sentados em meditação, seguindo a respiração, pensem consigo mesmo que agora vocês estão sentados sozinhos. Não existe ninguém sentado à sua volta, não existe nada mais. Desenvolvam essa pensamento de que vocês estão sentados sozinhos até que a mente solte de tudo que é externo, concentrando-se somente na respiração. Se vocês estiverem pensando, "Esta pessoa está sentada aqui, aquela pessoa está sentada ali", não haverá paz, a mente não vem para dentro. Simplesmente coloquem tudo isso de lado até que vocês sintam que não existe ninguém sentado a sua volta, até que não exista nada mais, até que vocês não tenham nenhuma hesitação ou interesse naquilo que está a sua volta.

Deixem que a respiração flua com naturalidade, não a force para que seja curta, longa ou o que quer que seja, simplesmente fiquem sentados e observem ela entrar e sair. Quando a mente se solta de todas as sensações externas, os ruídos de carros e outros barulhos não irão perturbá-los. Nada, quer sejam visões ou sons, irá perturbar, porque a mente não os estará recebendo. A sua atenção estará concentrada na respiração.

Se a mente está confusa e não se concentra na respiração, inspirem fundo, o mais fundo que vocês puderem e depois expirem até que não reste nada. Façam isso três vezes e depois re-estabeleçam a sua atenção. A mente irá se acalmar.

É natural que ela se acalme durante algum tempo e que depois a inquietação e a confusão possam surgir outra vez. Quando isso acontecer, concentrem-se, respirem fundo outra vez e depois re-estabeleçam a sua atenção na respiração. Continuem fazendo isso. Quando houver ocorrido isso algumas vezes, vocês se tornarão peritos nisso, a mente irá se soltar de todas as manifestações externas. Impressões externas não irão atingir a mente. Sati estará firmemente estabelecido. À medida que a mente for ficando mais sutil, assim também a respiração. As sensações irão ficar cada vez mais sutis, o corpo e a mente ficarão leves. A nossa atenção estará somente no que é interno, veremos a inspiração e a expiração claramente, veremos todas as impressões claramente. Veremos a Virtude, Concentração e Sabedoria se unindo. A isto se denomina o Caminho em harmonia. Quando existe harmonia a nossa mente ficará livre da confusão, estará unificada. A isto se denomina samadhi.

Após observar a respiração por um longo tempo, ela pode se tornar bastante sutil, a atenção na respiração irá cessar gradualmente, restando somente a atenção pura. A respiração pode ficar tão sutil que desaparecerá! Talvez estejamos "apenas sentados", tal como se não houvesse respiração. Na verdade existe a respiração mas a impressão é de que ela não existe. Isto ocorre porque a mente atingiu o seu estado mais sutil, existe somente a atenção pura. Ela foi além da respiração. O conhecimento de que a respiração desapareceu se torna estabelecido. O que tomaremos agora como objeto de meditação? Tomamos esse conhecimento como nosso objeto, isto é, a consciência de que não existe respiração.

Coisas inesperadas podem acontecer neste momento; algumas pessoas as experimentam, outras não. Se elas surgirem, devemos ser firmes e manter uma sólida atenção plena. Algumas pessoas vêm que a respiração desaparece e ficam com medo, elas temem que possam morrer. Nesse caso devemos entender a situação apenas pelo que ela é. Nós simplesmente notamos que não há respiração e tomamos isso como objeto da nossa atenção. Esse, podemos dizer, é o tipo de samadhi mais firme e mais seguro. Existe somente um estado da mente, firme e imóvel. Talvez o corpo se torne tão leve que é como se não houvesse corpo. Sentimos como se estivéssemos sentados em um espaço vazio, tudo parece vazio. Embora isso possa parecer muito estranho, vocês devem entender que não existe motivo para se preocupar. Estabeleçam a sua mente firmemente dessa forma.

Quando a mente está firmemente unificada, e já não é perturbada por impressões dos sentidos, a pessoa pode permanecer nesse estado pelo tempo que quiser. Não haverão sensações dolorosas que a perturbem. Quando o samadhi atingiu esse nível, poderemos deixá-lo quando quisermos, porém se deixarmos esse samadhi o faremos de maneira confortável, não porque ficamos entediados ou cansados. Nós o deixamos porque estamos satisfeitos por agora, nos sentimos relaxados, sem nenhum tipo de problema.

Se podemos desenvolver esse tipo de samadhi, e nos sentarmos, digamos, trinta minutos ou uma hora, a mente estará relaxada e calma por muitos dias. Quando a mente está assim relaxada e calma, ela está limpa. Tudo aquilo que experimentarmos, a mente irá tomar e investigar. Esse é um fruto do samadhi.

A virtude possui uma função, a concentração possui outra função e a sabedoria outra. Esses elementos são como um ciclo. Podemos vê-los todos dentro de uma mente tranqüila. Quando a mente está calma ela possui moderação e autocontrole devido à sabedoria e a energia da concentração. À medida em que ela fica mais controlada ela se torna mais sutil, o que por conseguinte dá força para que a virtude incremente a sua pureza. Na medida em que a virtude se purifica, isso auxilia no desenvolvimento da concentração. Quando a concentração está firmemente estabelecida ela auxilia o surgimento da sabedoria. Virtude, concentração e sabedoria se auxiliam mutuamente, elas estão inter-relacionadas dessa forma. No final o Caminho se converte em um só e opera todo o tempo. Devemos buscar a força que se origina do caminho, porque é a força que conduz ao Insight e Sabedoria.

Notas:

1. Samadhi é o estado de tranqüilidade com concentração que resulta da prática de meditação.

2. Jhana é um estado avançado de concentração ou samadhi, em que a mente fica absorvida pelo seu objeto de meditação. Ele está dividido em quatro níveis, cada um progressivamente mais refinado que os anteriores.

3. Isto é, todo o tempo, em todas atividades.

4. Esta é uma "vergonha" que tem como base o conhecimento da lei de causa e efeito, ao invés do mero sentimento de culpa.

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

Projeto Visão do Futuro

Reproduzo abaixo o texto de apresentação do Projeto Visão do Futuro, extraído do site http://www.visaofuturo.org.br/inicio.html.

Trata-se de uma iniciativa de vida alternativa, inserindo-se dentro da reflexão do comunitarismo, já abordado anteriormente neste Blog. Sem entrar no mérito do grau, da amplitude e profundidade dessa iniciativa – se ela tem o potencial (ou não) de promover as rupturas necessárias para a superação das diversas cisões promovidas pela cultura hegemônica – considero a proposta como avanço construtivo e concreto nesse sentido.

(agradeço à VKITSIS por ter noticiado a existência do projeto neste Blog)

Segue o texto:

A SOLUÇÃO: IMITANDO A NATUREZA com a“BIOECONOMIA”

O Parque Ecológico Visão Futuro em Porangaba, no interior do estado de São Paulo, é uma comunidade integrada (uma “eco-vila”) que tem a proposta de mostrar, na prática, como essa situação pode ser revertida.
O projeto do Parque é baseado na “BIOECONOMIA” – a aplicação dos princípios operacionais dos sistemas biológicos da natureza, tanto na vida social quanto na econômica. Sua meta é suprir as necessidades básicas da vida (alimento, vestuário, educação, saúde, moradia e energia) através de sistemas cooperativos, auto-organizadores e auto-suficientes, gerando mínima entropia e buscando a máxima utilização de todos os recursos humanos e naturais.

AUTOSUFICIÊNCIA, AUTONOMIA & DIGNIDADE

Com a falência das sociedades urbanas complexas em toda a parte, as comunidades locais estão cada vez mais buscando restaurar a noção de identidade e participação. O Parque Ecológico Visão Futuro oferece um mini laboratório social com vistas a explorar soluções viáveis para os 4 bilhões de seres humanos excluídos do processo de globalização. Baseados nos princípios de mínima entropia e máxima utilização dos recursos, os sistemas sustentáveis que dispomos, de agricultura orgânica, reciclagem de água e de resíduos, assim como de energia renovável, restauram os ciclos naturais para que se alcance um estado de equilíbrio dinâmico. Por meio de micro agro-indústrias, cooperativamente administradas que suprem a comunidade com as necessidades básicas da vida – alimento, vestuário e medicamentos – podemos revitalizar as raízes locais e criar microeconomias auto-suficientes. É possível quebrar o ciclo vicioso da pobreza, da exclusão social e da degradação ambiental, pela reativação das economias locais e pelo resgate da dignidade de todos os seres.

O Parque Ecológico Visão Futuro, uma área de 65 hectares no interior do estado de São Paulo, próximo da cidade de Porangaba, foi fundado com o objetivo de tornar-se um modelo de desenvolvimento rural integrado, conforme a filosofia da máxima utilização do mestre indiano Prabhat Rainjan Sarkar. Essa iniciativa deu-se a partir da II Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (“Eco-92”), no Rio de Janeiro, em 1992, com doações dos governos sueco e alemão (Agência Internacional de Desenvolvimento – SIDA) e a Fundação de Tecnologia Alternativa em Frankfurt, através do ONG Fundação Globetree, da Suécia). O projeto do Parque consistia, em seu início, de uma casa com 7 cômodos, um barracão precário, um velho cobertor e uma única colher. Durante os anos seguintes, com o apoio de incontáveis simpatizantes e doações, e com o trabalho incansável de dezenas de voluntários de todas as partes do mundo, o sonho tornou-se realidade.
Durante a fase inicial (1993-4), o Parque serviu como um centro de educação ambiental para eventos com grupos de adultos, jovens e crianças de escolas da região circunvizinha, tendo sido objeto de grande reconhecimento, tanto nacional como internacional, como um modelo de vida ecológica. Especialistas suecos em meio ambiente denominaram o Parque como uma “pequena fazenda de mínima entropia”, que demonstra, na prática, como uma comunidade rural pode obter auto-suficiência em alimento, remédios, energia e educação, enquanto, ao mesmo tempo, preserva os ciclos naturais de água e biomassa, gerando um desperdício mínimo e prevenindo a degradação ambiental. Numerosas atividades educacionais e culturais têm sido conduzidas no Parque desde o seu início, incluindo:
• O “Projeto Crescer” – treinamento de líderes infantis, na cidade próxima de Tatuí, para conscientizar outras crianças e adultos da importância de reciclagem de lixo, patrocinado pelo Unibanco Ecologia (1994-5).
• “Projeto Visão Futuro” – associado ao World Future Studies Foundation, da Austrália, e patrocinado pela UNESCO, para desenvolver consciência ecológica entre os jovens universitários (1996-8).
• Cursos sobre Biopsicologia e outros tópicos, que promovem o desenvolvimento integrado do ser humano, para adultos, a partir de 1998. Esses cursos estão numa fase de expansão, através de seminários de treinamento de multiplicadores, por todo o Brasil, que oferecem uma série de cursos e seminários sobre desenvolvimento humano, nas suas respectivas localidades.

AGRICULTURA ORGÂNICA

A auto-suficiência na alimentação é alcançada por meio de uma agricultura orgânica extensiva, que provê todas as necessidades nutricionais da comunidade e comercializa na área circunvizinha, gerando assim emprego para a população rural.

PADARIA

A padaria produz ítens orgânicos e integrais para o consumo da comunidade e do bairro vizinho, o que também gera emprego para as pessoas locais.

PLANTAS MEDICINAIS

A horta de plantas medicinais (em forma de mandala, ou geometria sagrada), assim como o laboratório, produzem artigos naturais como xampus, sabonetes, e cosméticos, para o uso da população local e para comercialização, gerando mais empregos para as mulheres do bairro. O laboratório também produz chás medicinais, contribuindo para a auto-suficiência em remédios da comunidade.

VESTUÁRIO

Um centro de costura, usando máquinas de costura e tecidos doados, oferece treinamento para as mulheres locais aprenderem a produzir as necessidades de vestuário de suas famílias, e peças simples de roupa para serem vendidas, aumentando assim a renda familiar.

ENERGIA ALTERNATIVA

Um sistema integrado de energia renovável, incluindo-se luz solar (produzido por painéis fotovoltáicos), aquecimento solar de água, e bombas de água ativadas por energia solar e cata-ventos.

RECICLAGEM DE LIXO E ÁGUA

Os resíduos orgânicos da comunidade são reciclados na compostagem para a horta orgânica e a água do esgoto é tratada num sistema biológico de tratamento, a “zona das raízes”, que recicla toda a água usada domesticamente (incluindo dos banheiros) para irrigação.

CAPTAÇÃO DA ÁGUA DA CHUVA

Os ciclos naturais hidrológicos são restaurados através de numerosos açudes que captam a água da chuva para máxima utilização da mesma. Esses açudes são cercados por plantações de “mata ciliar” para conservar a água...

TRATAMENTO BIOLÓGICO DA ÁGUA

...e a água é limpa através de um sistema biológico de tratamento.

EDUCAÇÃO

Na Creche CreSer as crianças rurais não apenas aprendem a ler, escrever e contar, mas desenvolvem auto-motivação, dignidade, valores éticos, criatividade e uma atitude de amor para com todos os seres.

SAÚDE CORPO-MENTE - AYURVEDA

Um Centro Ayurvédico, “Centro Ananda”, foi estabelecido para promover tratamentos alternativos da milenar ciência de saúde da Ayurveda (a “Ciência da Vida”)

DESENVOLVIMENTO HUMANO

Vários cursos e seminários, que promovem o desenvolvimento integrado do ser humano – nos planos físico, mental e espiritual – são oferecidos nas amplas dependências do Parque – que dispõe de dormitórios, teatros, refeitórios, salas de reunião, etc.

ARTE

Consciência e Amor são os princípios fundamentais que norteiam a nossa arte. Através de peças, rituais e vivências artísticas nos cursos e oficinas de artes para as crianças e os jovens do bairro, a nossa arte serve sua proposta: "Arte para serviço e bem-aventurança". A Companhia de Teatro VerDeImproviso enxerga o ser humano na sua essência: sua natureza divina.

COOPERAÇÃO

Os projetos são gerados cooperativamente, as decisões tomadas coletivamente e os recursos financeiros compartilhados equitativamente, com uma justa e equilibrada distribuição de renda.

Fonte: http://www.visaofuturo.org.br/inicio.html

terça-feira, 2 de outubro de 2007

Hyppolite, Blanchot, Bataille, Foucault, Barthes e Deleuze



Por GUILHERME ROMAN BORGES

(fragmento da tese de mestrado apresentada em 2005 junto à Faculdade de Direito da Universidade Federal do Paraná)

(...)

A investigação dessa experiência limite (...) pressupõe a compreensão de uma determinada forma de pensamento levada a cabo por intelectuais franceses a partir de meados da década de quarenta do século passado, uma prática angustiada de um discurso poderosamente original, imerso em temáticas como sexualidade, tabus, repressão, etc., temáticas até então canonizadas e rechaçadas pela filosofia, em prol do hegelianismo de Hyppolite ou do marxismo de Sartre.

(...)

Autores como Foucault, Deleuze, Barthes, Bataille e Blanchot, além de estarem todos interligados pelos aforismas nietzscheanos, vez que, segundo Roberto Machado, não apenas se preocuparam em fazer um comentário à obra de Nietzsche, mas, ainda mais, de assumir um estilo nietzschiano não-dialético e não-fenomenológico,[1] todos, às suas particularidades, procuraram repensar a modernidade e seus postulados, diante da angústia que visualizavam na sua incapacidade e saturação teórica de responder ao mundo os seus cotidianos conflitos. Angústia essa que inevitavelmente se fará transparecer nas suas escrituras.

Por essa razão, convém resgatá-los a partir de uma imagem específica, a imagem da transgressão, repensada especificamente no campo da epistemologia e da literatura, antes mesmo das questões políticas e sociológicas. É o pensamento sobre a possibilidade de um discurso autêntico e inovador que aqui se reverbera. Um pensamento com raízes nietzscheanas, que se fez presente nas interpretações literárias, e que muito podem agitar o estatuto epistemológico do discurso jurídico, emprestando-lhe novos conceitos e lhe doando originais sentidos.

Esses discursos de angústia, cada qual com as suas singularidades, preocupam-se em chocar, em desalojar a razão de seus receptores,[2] em romper com as barreiras do tradicionalismo, levando o pensamento a experimentar as suas fronteiras, o seu fora, o seu outro, em suma, os seus duplos: eis a costura deste ensaio.

Tratam-se de autores distintos, mas que paralela e transversalmente se dedicaram a romper em conjunto o cogito cartesiano e o império da razão.[3] Autores que, de um certo modo, estiveram interligados na vida.

Grande parte deles se encontraram na França pós-resistência e se entrecruzaram na vida acadêmica, ora pessoalmente, ora intelectualmente.

Os primeiros encontros se deram de modo indireto em Paris, na prestigiada Rued’Ulm, berço do Collège de France, quando inúmeros intelectuais, como Georges Bataille, Pierre Klossowski, Jacques Lacan, Michel Foucault, Raymond Aron,Maurice Merleau-Ponty, André Breton, entre outros, cada qual ao seu tempo,deixaram-se levar pelas aulas do conhecido Maître Hippal, o filósofo JeanHyppolite (1907-1968), hegeliano introdutor na França da fenomenologia do espírito, e, um dos poucos capazes de unir, ao lado de Jean Wahl e Henri Lefebvre, tantos pensadores.[4]

Hyppolite foi o mestre de todos, sua obra Génèseet structure de la “Phénomenologie de l’esprit”) teve vasta referência nas questões sobre a vida e a morte da filosofia para esses autores. Hyppolite, que no começo da década de cinqüenta era o diretor da École Normale Supérieure,[5] fez-se presente nas suas vidas, discutindo também temas variados, como psicologia, antropologia kantiana (tese foucaultiana complementar), etc.[6] O mestre Hippal teve papel significativo, como por exemplo, na vida de Foucault, desde a sua recomendação à Universidade de Clermont-Ferrand, para que aceitasse o jovem filósofo como professor auxiliar na cátedra de filosofia[7] (sua primeira cátedra), bem como por ter articulado o seu ingressono Collège de France em 1970, juntamente com Braudel, Dumézil e Vuillemin, apesar de sua morte prematura no dia 27 de outubro de 1968.[8]

Sem embargo a sua robusta presença na vida intelectual parisiense, a ver-se pelo cronológio foucaultiano publicado no segundo trimestre de 1969 na Revue de Métaphysique et de Morale,[9] e a sua capacidade de público, Hippolite foi naturalmente por eles negado, ou melhor, o seu hegelianismo dominador foi rechaçado, em prol de novas perspectivas de cunho claramente nietzscheanas.

É nesse contexto que aparecem autores importantes na vida acadêmica francesa como Barthes, Foucault e Deleuze, contemporâneos e de raízes bataillana e blanchoniana.

Georges Bataille e Maurice Blanchot foram literatos e filósofos que marcaram essa reviravolta não-marxista do pensamento francês. Eram declaradamente amigos e trocaram uma série de correspondências sobre o conteúdo de suas obras, sobre seus novos horizontes e sobre suas discussões temáticas, fato esse de relevante importância para esse ensaio, à medida que o direito erotizado se conflui no erotismo bataillano e na experiência do fora blanchoniana.[10]

Contudo, ainda não tão próximos, a presença desses dois intelectuais é constante nos autores normaliens, a ponto do jornalista e biógrafo Didier Eribon sustentar que “Blanchot certamente seria uma das fontes fundamentais para compreender a obra de Foucault.”[11]

As leituras de Foucault sobre Bataille e Blanchot já começaram na École Normale Supérieure, quando as fazia na descoberta do homossexualismo como forma de transgressão e de experiência limite.[12]

E, aqui, o enlace é maior, pois a transgressão reúne vários desses intelectuais sob o mesmo percurso epistemológico. Entretanto, é nos anos cinqüenta, a partir de sua retirada do partido comunista, que o entusiasmo de Foucault pela literatura teve espaço. O autor chegava a comentar nesse período que gostaria de ser como Blanchot, especialmente quando se encantava por suas crônicas escritas regularmente a partir de janeiro de 1953 na Nouvelle Revue Française.[13]

Foucault, inclusive, chegou a publicar em 1966, num volume da Critique escrito em homenagem a recente morte de Blanchot, um artigo extraordinário interpretando a sua obra, denominado La Pensée du Dehors,[14] sem embargo, como narrara o próprio escritor no livro, o fato de que ambos jamais chegaram a se conhecer, senão teriam trocado uma única vez algumas palavras.[15] A amizade silenciosa entre Foucault e Blanchot aparece em alguns momentos de suas vidas. Alguns anos mais tarde, Foucault teria buscado um editor para sua tese sobre a loucura antes mesmo de defendê-la, como de praxe, e Blanchot, apesar de não ter obtido sucesso, chegou a fazer-lhe um parecer favorável no corpo editorial da Gallimard.

O último contato tácito teria sido em 1963, quando Blanchot, próximo da morte, renderia uma última vez homenagem a Foucault por ocasião da publicação de Raymond Roussel.[16]

Já com Bataille, a relação foucaultiana se trava noutro sentido, mas também muito próxima. Foucault, do mesmo modo que dedicou a Blanchot, na sua morte, um artigo na Critique, também o faz para Bataille, primeiro, com a publicação num volume especial que lhe fora dedicado na mesma revista, da qual esse fora fundador, com um artigo intitulado Préface à la Transgression[17], e, segundo, através da redação para a Gallimard de uma apresentação às suas obras completas.[18] Aliás, o próprio Foucault, numa entrevista concedida a Gerard Raulet, para a Revue Telos, na primavera de 1983, intitulada Structuralisme et poststructuralime salienta porque estes autores teriam sido importantes:

“eu li Nietzsche por causa de Bataille e eu li Bataille por causa de Blanchot” [19]

Dessa maneira, as leituras de Foucault levam a Blanchot, que levam a Bataille, e, derradeiramente, a Nietzsche, por essa razão, convém também sobre ela debruçar e investigar a origem dessa modalidade de discurso, naturalmente angustiada.

Mas se Nietzsche foi levado a Foucault nas mãos dos escritores transgressionais, estes o foram até as mãos de Roland Barthes através de Foucault.

A relação entre Foucault e Roland Barthes começou muito cedo, pois como se lembra Madame Foucault, em conversa com Didier Eribon, diz tê-lo recebido em sua casa em Vendeuvre algumas vezes, quando Foucault ia passar suas férias.[20] Eles se conheceram no final de 1955, quando Foucault fora passar as férias de Natal em Paris, por intermédio de Robert Mauzi, ex-colega da Rue d’Ulm. Barthes, nessa época, não era muito conhecido, pois, além de ter publicado somente Le Degré Zéro de l’Écriture e Michelet par lui-même, havia ingressado tarde na agrégation, já que passara parte de sua infância num sanatório.[21]

Mais tarde, por duas vezes Barthes seria convidado para dar palestras em Uppsala, quando lá restara Foucault na função de leitor.[22] E, também, no ano de 1962, após a morte de Georges Bataille, quando Foucault se tornara editor responsável da Revista Critique, e o convidara a participar do conselho editorial.[23]

Apesar da relação, a amizade que se estabelece nesse período, à custa de constantes jantares no Quartier Latin e de boates de Saint-Germain, nunca foi tão tranqüila, pois sempre existiu uma certa rivalidade entre os dois pensadores e uma viva discrepância de temperamentos.

Alguns autores, como David Macey, outro grande biógrafo de Foucault, arrisca afirmar que a separação ocorrida entre ele e Barthes poderia ter tido razões distintas: ou porque ambos teriam um ciúme recíproco; ou em virtude de um incidente que ocorrera, quando Barthes, Foucault e Jean-Paul Aron, passavam juntos suas férias em Tanger, e aquele teria caçoado de Foucault por vê-lo triste pelo fato de não ter recebido nenhuma correspondência de Daniel Defert; ou, então, segundo o próprio Defert, porque a sua presença na vida de Foucault e as preocupações em torno das críticas de Lês Mots et les Choses teriam acabado com os jantares e afastando a ambos.

O relacionamento estabelecido foi conflituoso e escasso por toda a vida, só sendo resgatado com serenidade por volta de 1975, estranhamente para alguns, quando Foucault sustentaria a candidatura de Barthes no Collège de France.[24]

É nesse ano, quando Barthes é eleito para o Collège de France, e publica o livro Roland Barthes par Roland Barthes, uma espécie de autobiografia, que existe uma aproximação maior com os problemas vividos por Foucault (como o homossexualismo),[25] bem como a infância complexa, daquele que vivera num sanatório, e, salvo o ópio, certamente a homossexualidade, vez ela lhes trazia problemas comuns segundo à época. Para muitos, a ajuda de Foucault decorreria da velha amizade, entretanto, a par das razões, a verdade é que Foucault a faz de modo brilhante, marcando a vida de Barthes até a sua trágica morte (atropelamento na frente da Sorbonne no dia 26 de março de 1980).[26]

Por ocasião da morte de seu amigo, Foucault escreve um necrológio para o anuário do Collège de France, reconhecendo o brilhantismo de seu colega:

“Há alguns anos, quando eu lhes propunha que o acolhessem em nosso meio, a originalidade e a importância de um trabalho que prosseguira durante mais de vinte anos, com um brilho reconhecido, me autorizavam a não recorrer, para apoiar o meu pedido, à amizade que eu tinha por ele. Eu não tinha que esquecê-lo. Podia fazer abstração disso. A obra estava ali. Desde então, essa obra está sozinha. Ela ainda falará, outros a farão falar, e falarão sobre ela. Então permitam que nesta tarde fale apenas a amizade, que, com a morte que ela detesta, deveria ter ao menos uma semelhança: ser silenciosa (pas bavarde).”[27]

Além da relação pessoal, certamente se poderia perceber uma relação acadêmica, especialmente no que tange à questão da linguagem e do mito, que Foucault retoma em A Verdade e as Formas Jurídicas, bem como em torno da ênfase sobre a idéia de corpo, do corpo como foco de atenção, ao afirmar, por exemplo, que as pessoas teriam vários corpos, um corpo digestivo, um corpo mareado, um corpo sensual, um corpo muscular, um corpo humoral (nas mãos do escritor), e um corpo emotivo.[28] Insiste na mesma idéia no texto Encore le corps, publicado na Critique.[29]

Certamente a prevalência pelo corpo encontra guarida no biopoder de Michel Foucault, especialmente na sua espacialidade como inserção de práticas disciplinares. Poder-se-ia, ainda, vasculhar a relação existente em torno da idéia de transgressão sexual afirmada como liberação política da sexualidade, durante os anos cinqüenta e sessenta por Foucault.

Todavia, para além da relação de transgressão nas obras de Bataille e Blanchot, a que Barthes e Foucault experimentam, e, conseqüentemente a Nietzsche, outro intelectual de peso deve se juntar nesse ensaio: Gilles Deleuze, autor original, que veio a delimitar o conceito do fora a partir de suas construções sobre as multiplicidades e a diferenças.

Deleuze, juntamente com François Châtelet, foi aprovado para École Normale Supérieure em 1948, origem de grande parte deles.[30]

O primeiro encontro entre Foucault e Deleuze se deu no início dos anos cinqüenta, quando aquele era professor em Lille, e Deleuze, na época lecionando no Liceu de Amiens, por acaso levado por um amigo, Jean-Pierre Bamberger, assiste a uma de suas aulas, e após vai jantar com Foucault. Todavia, a profícua relação de alguns anos mais tarde não se concretizou neste momento,[31] mas começa a retomar seu curso quando Foucault sugere o nome de Deleuze para substituir Jules Vuillemin, que tinha sido eleito para o Collège de France.

Embora isso não venha ocorrer, e Deleuze perca a eleição para Roger Geraudy, candidato do Partido Comunista, Foucault, como represália, acaba por incomodá-lo até o seu pedido de transferência,[32] surgindo, então, desde 1962, em Clermont-Ferrand, uma intensa amizade entre Foucault e o casal Deleuze. Ambos voltam a se encontrar na Universidade de Vincennes, quando Foucault, assim que nela ingressa, indica o seu nome como professor auxiliar, embora Deleuze não o aceite, já que estava muito doente.[33] Outras oportunidades surgem, e que, de certo modo, vão costurando a experiência do fora nos autores.

Por ocasião da publicação de dois livros de Deleuze, Différence et Répetition e Logique du Sens, Foucault escreve seu último artigo para a Revista Critique, intitulado Theatrum Philosophicum;[34] e, em razão do GIP (Groupe d’Information sur les Prisons), na luta contra o racismo, eles compartilham do grupo de para protestar contra as condições penitenciárias na França.[35]

Ainda que intermitente, a amizade sempre foi muito intensa, escreveram e debateram textos juntos, como foi o caso da “introdução” que redigiram para a tradução francesa da obra de Nietzsche, Introduction générale aux oeuvres philosophiques complètes de F. Nietzsche,[36] como também participaram do famoso debate sobre o poder, intitulado Un dialogue sur le pouvoir; com Pierre Victor, sobre a justiça popular, denominado Sur la justice populaire: débat avec les maos[37]; e sobre a relação entre os intelectuais e o poder, intitulado Lês intellectuels et le pouvoir.[38]

Gilles Deleuze, no começo do ano de 1970, publicou na revista Critique, um famoso ensaio intitulado Un nouvel Archiviste,[39] no qual procurou comentar detalhadamente L’Archéologie du Savoir. Igualmente em 1975, após a publicação de Surveiller et Punir, Deleuze faz uma clássica resenha na mesma revista intitulada Écrivain non: un nouveau cartographe.[40]

Em meados da década de setenta ambos participam, juntamente com outros filósofos e políticos, como Sartre, Simone de Beauvoir, François Mitterrand, Michel Rocard, Lionel Jospin, Jean-Pierre Chevènement, Yves Montand e Claude Mauriac, do Comitê pela Defesa dos Prisioneiros Políticos Iranianos.[41]

Apesar da contígua amizade, a ver-se pelas constantes publicações de artigos de ambos comentando suas recentes publicações, Foucault, talvez muito mais do que o próprio Deleuze, após as suas opções políticas de 1975, em que deixava gradativamente sua fase esquerdista, sem qualquer ruptura, acabou se afastando deste grande pensador, que segundo Didier Eribon, seria muito mais por razões políticas, do que por uma autocrítica pela qual Foucault passava após a publicação de La Volonté du Savoir.

Ambos se distanciaram por duas significativas razões: primeiro, porque Foucault, em 1977, durante a militância contra a extradição do advogado alemão Klaus Croissant, que estava sendo acusado de auxiliar materialmente um grupo denominado “Bando de Baader”, rechaçou a atitude de Deleuze, ao defender, além do advogado, também seus clientes, os quais Foucault considerava ‘terroristas’.

Foucault, ao escrever seu manifesto, restringe-se aos temas exclusivamente jurídicos, aos direitos de defesa e à recusa da extradição, enquanto Deleuze fora mais amplo, apresentando, juntamente com Felix Guatarri a Alemanha Ocidental como um país que caminhava para a ditadura policial; em segundo, porque discordavam da figura dos “novos filósofos”, em especial André Glucksmann, com os quais Deleuze tinha grande antipatia, porque entendia que esses não passavam de animadores de programa de televisão,[42] enquanto Foucault defendia a importância de suas idéias, e já havia escrito um texto, intitulado La grande colère des faits, em que reconhecia a inserção no discurso filosófico de temas como o Gulag.[43]

Após 1977, a amizade nunca mais foi a mesma, embora Foucault tivesse sempre continuado a bem comentar aos seus colegas as produção de Deleuze, o qual considerava “o único espírito filosófico na França”, e Deleuze ter reconhecido cotidianamente a importância de Foucault para a filosofia. Tanto isso é verdade, que no dia 14 de dezembro de 1981, por ocasião da violenta repressão do movimento sindical Solidariedade na Polônia pelo general Jaruzelski, quando Foucault e Bourdieu escreveram um manifesto para publicarem no Libération, e foram atrás de grandes personalidades francesas para ganhar assinaturas, Deleuze se recusara, pois dizia não querer embaraços para um governo socialista que acabava de se instalar.129

No campo intelectual, há inúmeras possibilidades de encontrar temáticas comuns: desejo, enunciado, multiplicidade, fora, entretanto, é a possibilidade de um pensar diferente, de um discurso de transgressão que os une incondicionalmente.

Essas importantes relações tornam-se, então, profícuas para iniciar a investigação de seus pensadores, marcando-lhes a esteira similar de percurso, e fazer o discurso jurídico se desdobrar na direção do impensado, e poder construir um discurso constitutivo radicalmente erotizado.

(fragmento extraído da tese de mestrado “O DIREITO EROTIZADO: Ensaios sobre a experiência do fora e do novo na constituição de um discurso jurídico transgressional”, apresentada por GUILHERME ROMAN BORGES em 2005 junto ao Programa de Pós-Graduação em Direito, área de Sociologia do Direito, da Faculdade de Direito, do Setor de Ciências Jurídicas, da Universidade Federal do Paraná, sob orientação do Prof. Dr. Abili Lázaro Castro de Lima)



[1] MACHADO, Roberto. Foucault: a filosofia e a literatura. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2000, p.10.
[2] RIBEIRO, Renato Janine. O discurso ..., p. 29. “A frase que choca ou impressiona tem eficácia – a de ofuscar, a de permitir um novo conhecimento mediante o desalojar a razão, presa das rotinas ... ao leitor, busca-se surpreender, fazendo que perca suas rotas usuais mediante lampejos, pontuais, de sedução...”
[3] HABERMAS, Jürgen. Der philosophische..., p. 248-343.
[4] ERIBON, Didier. Michel Foucault. 2ème. éd. Paris: Champs Flammarion, 1991, p. 36-37.
[5]ERIBON, Didier. Michel Foucault..., p. 92.
[6] ERIBON, Didier. Michel Foucault..., p. 114.
[7] ERIBON, Didier. Michel Foucault..., p. 155.
[8] ERIBON, Didier. Michel Foucault..., p. 226-227.
[9] FOUCAULT, Michel. Jean Hyppolite. 1907-1968. Revue de métaphysique et de morale, Paris,
a. 74, n. 2, p. 129-136, avril/juin 1969.
[10] BATAILLE, Georges. Choix de lettres (1917-1962) (établie par Michel Surya) Paris: Gallimard,
1997, p. 1-588.; e BLANCHOT, Maurice. Les lettres à Georges Bataille. In: Choix de lettres
(1917-1962) (établie par Michel Surya) Paris: Gallimard, 1997, p. 589-598.
[11] ERIBON, Didier. Michel Foucault..., p. 79.
[12] ERIBON, Didier. Michel Foucault..., p. 46.
[13] ERIBON, Didier. Michel Foucault..., p. 79.
[14] FOUCAULT, Michel. La pensée du dehors. Critique: Revue Générale des Publications
Françaises et Étrangère, Paris, v. XXII, n. 229, p. 523-546, juin 1966.
[15] BLANCHOT, Maurice. Foucault tel que je l’imagine. Monpellier: Fata Morgana, 1986, p. 9-10.
“Para ser exato, eu devo dizer que não tive relações pessoais com Michel Foucault. Nunca o encontrei, exceto uma vez, no pátio da Sorbonne durante os acontecimentos de Maio de 68, talvez em Junho ou Julho (mas me dizem que ele não estava lá), e lhe dirigi então algumas palavras, ignorando ele quem lhe estava a falar (digam o que disserem os detratores de Maio, foi um belo momento esse, em que cada um podia falar com qualquer outro, anônimo, impessoal, homem entre os homens, acolhido sem outra justificação para além da de ser um outro homem). É verdade que durante esses acontecimentos extraordinários, eu dizia muitas vezes: Mas porque é que Foucault aqui não está? – restituindo-lhe assim o seu poder de atração e considerando o lugar vazio que ele deveria ter poupado. Ao que me respondiam com uma observação que não me satisfazia: ele continua um pouco reservado; ou então: está no estrangeiro. Mas, precisamente, muitos estrangeiros, até remotos japoneses, estavam lá. Foi assim, talvez, que perdemos a ocasião de nos encontrarmos.”
[16] 101 ERIBON, Didier. Michel Foucault., p. 174.
[17] FOUCAULT, Michel. Préface à la transgression. Critique: Revue Générale des Publications Françaises et Étrangère (Hommage à), Paris, v. XIX, n. 1963, p. 751-769, août/septembre, 1963.
[18] FOUCAULT, Michel. Présentation. In: Georges Bataille: oeuvres complètes. v. 1. Paris: Gallimard, 1970, p. 5-6.
[19] FOUCAULT, Michel. Structuralisme et post-structuralisme. Dits et Écrits. Org. Daniel Defert et François Ewald. Paris: Gallimard, v. 4, 1994, p. 437. “... j’ai lu Nietzsche à cause de Bataille et j’ai lu Bataille à cause de Blanchot.”
[20] ERIBON, Didier. Michel Foucault..., p. 31.
[21] MACEY, David. Michel Foucault. Trad. Pierre-Emmanuel Dauzat Paris: Gallimard, 1994, p.
101.
[22] PIEL, Jean. Michel Foucault..., p. 751. “Quels furent les invités? (...) et bien entendu RolandBarthes qui était un invité presque habituel.” [trad. do autor “Quais foram os convidados? (...) e, especialmente, Roland Barthes que foi um dos convidados mais habituais.”] e ERIBON, Didier. Michel Foucault..., p. 104.
[23] ERIBON, Didier. Michel Foucault..., p. 177.
[24] ERIBON, Didier. Michel Foucault..., p. 104.
[25] Em Roland Barthes par Roland Barthes, o autor fala de suas duas deusas H, o haschisch e o homossexualismo. BARTHES, Roland. Roland Barthes par Roland Barthes. Paris: Éditions du Seuil, 1975, p. 68.
[26] ERIBON, Didier. Michel Foucault..., p. 156-157.
[27] FOUCAULT, Michel. Roland Barthes (12 novembre 1915 – 26 mars 1980). Dits et Écrits. Org.
Daniel Defert et François Ewald. Paris: Gallimard, v. 4, 1994, p. 124-125.
[28] BARTHES, Roland. Roland Barthes par Roland Barthes. Paris: Éditions du Seuil, 1975, p. 65.
[29] BARTHES, Roland. Encore le corps. Critique: Revue Générale des Publications Françaises et Étrangère, Paris, n. 423-424, p. 645, août/septembre, 1982.
[30] ERIBON, Didier. Michel Foucault..., p. 50.
[31] ERIBON, Didier. Michel Foucault..., p. 83.
[32] ERIBON, Didier. Michel Foucault..., p. 162.
[33] ERIBON, Didier. Michel Foucault..., p. 215.
[34] ERIBON, Didier. Michel Foucault..., p. 177.
[35] ERIBON, Didier. Michel Foucault..., p. 243 e 254.
[36] FOUCAULT, Michel; DELEUZE, Gilles. Introduction générale aux oeuvres philosophiques compètes de F. Nietzsche. In: Dits et Écrits. Org. Daniel Defert et François Ewald. v. 1 Paris: Gallimard, 1994, p. 561-564.
[37] FOUCAULT, Michel; DELEUZE, Gilles; VICTOR, Pierre. Sur la justice populaire: débat avec les maos. In: Dits et Écrits. Org. Daniel Defert et François Ewald. Paris: Gallimard, v. 2, 1994, p. 340-369.
[38] DELEUZE, Gilles. Les intellectuels et le pouvoir: entretien avec Michel Foucault. In: Dits et Écrits. Org. Daniel Defert et François Ewald. Paris: Gallimard, v. 2, 1994, p. 306-315.
[39] DELEUZE, Gilles. Un nouvel archiviste. In.: Critique: Revue Générale des Pfrançaises et Étrangère, Paris, v. XXXI, n. 274, p. 195-209, mars 1970.
[40] DELEUZE, gilles. Ecrivain non: un nouveau cartographe. Michel Foucault: Surveiller et punir. In.: Critique: Revue Générale des Publications Françaises et Étrangère, Paris, v. XXXI, n. 343, p. 1207-1228, déc. 1975.
[41] ERIBON, Didier. Michel Foucault..., p. 300.

[42] ERIBON, Didier. Michel Foucault..., p. 277.
[43] FOUCAULT, Michel. La grande colère des faits. In.: Dits et Écrits. Org. Daniel Defert et François Ewald. v. 3 Paris: Gallimard, 1994, p. 277-281.

Carta a um amigo

(em 23/08/2007)
Caro M.,

Obrigado pelos textos.

Embora meu interesse pelo xamanismo seja recente, venho estudando assuntos relacionados já há algum tempo.
Vendo como as coisas caminharam nos últimos meses, acho até curioso como acabei focando meus interesses nesse tipo de coisa. Há 1 ano, jamais poderia imaginar isso, pois me concentrava nos estudos da cultura pós-moderna e no fenômeno da ideologia e alienação do capitalismo avançado. Entretanto, 2 fatores acabaram se cruzando: uma inquietação existencial muito pessoal me levava a questionar minha própria identidade e natureza de meu sofrimento, o que acabou me aproximando da filosofia budista; e, certamente influenciado por isso, os estudos sobre pós-modernismo me levaram a considerar a indispensabilidade de se ter em alta conta as interpretações psicanalíticas – pois hoje o “sistema” se encontra dependente, mais do que nunca, da personalidade narcisista para sua reprodução (poderíamos até dizer que o sistema é a cultura narcisística). Isso me levou, naturalmente, a Zizek e a todos os autores pós-68, material farto de interlocução...
E onde fica o xamanismo nisso ? Bem, é que me aprofundando mais um pouco, comecei a realizar minhas próprias “experiências” com a natureza da identidade, buscando seus limites, pois estava claro que a natureza da manipulação do capitalismo apoiava-se no apego individual a uma auto-imagem, ela própria criada e manipulada culturalmente. Essa seria também a natureza de meu próprio sofrimento... Experimentando alguns tipos de meditação e lendo bastante sobre isso, acabei por experimentar estados subjetivos que me esclareceram algumas coisas sobre a natureza do Ego, especialmente a cisão entre consciente e inconsciente: é como se partíssimos das proposições psicanalíticas do aparelho psíquico cindido para irmos um pouco mais além, buscando a superação dessa cisão. O próprio Freud tem uma frase muito sugestiva sobre isso: “Trata-se de incorporar porções cada vez maiores do ISSO/ID e avançar sobre o SUPER-EGO” (extraí de um livro sobre Debord – não por acaso). Assevero desde já que o budismo se encontra bem à vontade nesse tipo de reflexão, tendo ido bem além da psicanálise...Pois bem, experimentando o contato com o inconsciente, especialmente (mas não exclusivamente) por meio dos sonhos, cheguei à conclusão de que essa incorporação do ID/ISSO envolve uma metamorfose de ambas as instâncias (inconsciente e consciente), uma espécie de síntese transformadora em todos os níveis (inclusive cognitivo). Isso somente é possível pela abertura de um contato consciente, uma espécie de janela, pela qual podemos admitir, aceitar, a interferência de vontades inconscientes em nosso cotidiano, e vice-versa (ou seja, o consciente também transforma o inconsciente). É uma espécie de passagem para o outro, que resulta num terceiro Eu, uma espécie de deslocamento de perspectiva. E aqui temos o xamanismo, que nada mais é que esse trânsito com o outro que temos dentro de nós mesmos e que não conhecemos nem sabemos sua extensão e profundidade.
Tais reflexões resultaram em textos como o aqueles que coloquei no Blog sobre sonhos (http://diacrianos.blogspot.com/2007/08/sobre-sonhos3-uma-proposta-preliminar.html).
De tudo isso concluo com uma nota para você: acredito que seu talento já está sendo reconhecido e é apenas um começo. Porém não abra mão de sua independência, o que só pode ser garantida com um contato (e um respeito, uma aceitação) cada vez maior com/pelas suas próprias inquietações íntimas, que é a principal fonte de criação. O que proponho é que toda reflexão teórica só adquire brilhantismo se mantivermos essa conexão com nosso inconsciente, fonte última da criação. Lembro-me a esse propósito de um texto de W. Mills (acho que era a Imaginação Sociológica ou algo assim) que falava que todos os grandes autores (Weber, Marx etc) são antes de tudo sonhadores e artistas.